Um triângulo que dá o que pensar

Mãe, filha e esposa. Muitas mulheres assumem esses três papeis distintos ao mesmo tempo. E há que se separar todos eles para não ser uma mãe quando se deve ser mulher; uma filha na hora que se deve ser mãe.

Os padrões de comportamento que hoje apresentamos e vivemos têm seu início no modelo familiar de origem, impressos como xerox em nossa realidade cotidiana. A partir desse aprendizado, desenvolvemos papeis, através dos quais atuamos em nossa realidade. Há três tipos de papeis: mãe, filha e mulher, que permeiam e delineiam a existência feminina.

A ênfase será mais particularmente dada ao contexto relacional de casal, focando o comportamento da mulher. Com isso, não estou excluindo as dificuldades pertinentes ao homem em questão, pois existe sua parcela de contribuição na manutenção e complementação de um dos papeis assumidos e fixados pela mulher.

Claro que cada caso particular apresenta sua dinâmica específica e deve ser analisado, compreendido e diagnosticado individualmente, em seu contexto amplo e pessoal. Pois toda verdade é relativa e depende de onde está inserida e do momento vivido. O problema se torna efetivo quando há polarização, ou seja, o comportamento permanece fixo em um dos polos.

PAPEL DE MÃE

Quando o comportamento fica polarizado no papel de mãe, há uma tendência de a mulher proteger o parceiro, que se torna dependente e fica sob seu domínio e controle. Portanto, a mulher mantém seu homem como criança, alimentando seu lado infantil.

Além de reforçar o sentimento de impotência e comodismo. Isto impede o homem de crescer e desenvolver seu lado masculino no que se refere a agir, realizar e se expandir. É comum neste padrão a existência de homens submissos, que permitem à mulher ocupar todo o espaço de decisão e ações que poderiam ser compartilhadas.

A função marido-mulher fica alterada, favorecendo a infidelidade, quando o homem busca fora uma mulher, uma vez que dentro ela inexiste. Portanto, a mudança de atitude da mulher, saindo do comportamento maternal, ativará o lado homem masculino do parceiro, e por sua vez ela se equilibrará, resgatando sua parcela feminina.

Sempre que há polarização num dos papeis, ela é mantida pelo que se chama de ganho secundário. Portanto, é conveniente manter este padrão, que por pior que pareça ser, é cômodo e conhecido. O mais difícil é tentar mudar, condição que exige reformulação de toda uma estrutura de funcionamento.

PAPEL DE FILHA

Neste papel, a mulher se mantém submissa, colocando seu parceiro num pedestal, idealizando-o e configurando-o como seu salvador. Aquele que tudo sabe, resolve, e faz por ela. É a princesa que vive na sombra do outro e não caminha com as próprias pernas.

Em contrapartida, pode apresentar medo de ousar e enfrentar o pai para assumir suas escolhas e desejos. Pode até sentir medo, vergonha e respeito excessivos pelo parceiro, imobilizando suas ações, mantendo uma atitude de menina sem uma opinião própria. Pode ficar regredida a ponto de se nivelar aos filhos, tornando-se a filha mais velha. Nesta condição específica há uma desorganização familiar, com a quebra de hierarquia e não delimitação do subsistema casal, necessário para manter não só a ordem como o bom funcionamento familiar.

Ainda podem ser incluídos nesta modalidade casos em que a sogra, que reside com o casal, assume o papel de mulher do genro, posição esta pertencente à sua filha. Ela o faz atuando como mãe dos netos, administrando a casa e se aliando ao genro contra a filha ou excluindo-a.

Enfim, forma-se uma trama familiar onde, de alguma forma particular, todos acabam complementando e reforçando aquele determinado esquema de relacionamento que se torna conveniente a todos os envolvidos. Cada pessoa assume uma parte naquele arranjo específico, mantendo um equilíbrio que convém a todos. Até que uma das partes se rebele, mexendo na estrutura como um tijolo que é tirado da base e ameaça ruir toda uma construção.

Muitas mulheres, no seu desenvolvimento, oscilam de um polo para outro – ou seja, de filha vira mãe ou vice-versa, funcionando como um pêndulo. É natural neste processo, o movimento de passar de um extremo para outro, até chegar ao meio termo. Este equilíbrio é difícil porque implica a confrontação do lado mulher, vértice mais complexo do triângulo.

PAPEL DE MULHER

Crescer e tornar-se mulher é amedrontador. É necessário lutar contra os sentimentos de rejeição e inferioridade. Significa mudar o modo de ser e funcionar, um dos mais assustadores empreendimentos de vida. Ser e agir de igual para igual, com ideias e posições próprias e manter a individualidade na relação com o outro exige auto avaliação constante e disposição para enfrentar as possíveis crises decorrentes da vida em comum.

Se soubermos aproveitar de forma positiva, descobrindo e crescendo com as diferenças e dificuldades, faremos das crises um trampolim para alcançar um desenvolvimento pessoal pleno. No caso da mulher, ela estará abrindo espaço para uma vida mais real, individualizada e equilibrada, onde o papel de mãe será bem mais tranquilo e realizador.

A mulher faz brilhar o sentido de liberdade, resolvendo o dilema entre as duas polaridades (mãe e filha). Quanto mais nos conhecemos a nós mesmas, menor é a possibilidade de tratarmos nosso companheiro como filho ou pai.

Mulher é aquela disposta a crescer, assumindo sua parte no relacionamento e esperando o mesmo do parceiro. Tem coragem de enfrentar sua fraqueza, ultrapassá-la e transformá-la. É de fato a verdadeira companheira do homem, sempre buscando o real encontro consigo mesma.

Jeanine Wandratasch Adami é psicóloga com formação em terapia relacional sistêmica, Gestalt, Bioenergética e Psicologia Transpessoal. Faz atendimentos individual, casal, família e grupos. Atende em Brusque no Sintricomb. E-mail: [email protected]

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