Todas nossas contradições expostas em 10 dias – Por Gabriel Wilhelms

A greve dos caminhoneiros representou um dos momentos mais deprimentes da nossa história. Nestes dez dias de greve, em que o país praticamente parou, pudemos ver expostos nossos maiores preconceitos, nosso paternalismo, ignorância, e sobretudo nossas contradições.

Do início da greve, até os desdobramentos posteriores, que ainda estão em curso, fomos expostos a certos padrões de comportamento e sobretudo, de pensamento. Aprendemos que boa parte da população brasileira, 87% segundo pesquisa do Data Folha, quer coisas inconciliáveis, de tal forma que apoiaram o subsídio para o diesel e as demais pautas classistas dos caminhoneiros, mas não estão dispostos a arcar com a conta, conta essa que eu, assim como muitos outros país afora, afirmei que viria.

Não houve uma catástrofe climática, uma guerra, e tampouco uma crise econômica, houve uma ação deliberada, orquestrada por uma classe (a mando, ou pelo menos com anuência dos patrões) em que o desabastecimento da população fazia parte do método, era o ponto nevrálgico da coação contra o governo para atender demandas que, como já afirmei e reafirmo, eram em causa própria, às custas de todos mais. Deu certo, e até o fim do ano a “bolsa caminhoneiro”, ou talvez seja melhor dizer, “bolsa transportadora”, custará R$13,5 bilhões. A conta é nossa.

Como a população se tornaria refém do sequestro do livre uso das rodovias públicas e do cerceamento do direito de ir e vir, o que por si só já torna o método (não a greve) ilegal desde o princípio, foi natural que as corridas aos supermercados e postos de combustíveis começassem. Mas como o que é natural não é aceito pelos moralistas de plantão, cedo as redes se revoltaram com aqueles que não gostam de passar fome e que abasteceram a despensa. O mesmo se deu com quem encheu o tanque, esses traidores da causa que aceitaram pagar 8 reais pelo litro, esqueçam esse papo de Venezuela e Irã, são eles os verdadeiros responsáveis pelos preços astronômicos da gasosa. Nosso moralista não considera possibilidades, não pensa que quem encheu o tanque precisa trabalhar, que pode precisar levar uma criança doente ou uma mulher em trabalho de parto ao hospital, na verdade, que o faça de bicicleta ou a pé, pois ele não tem opção de não aderir à greve.

Mas diante da escassez, o mercado dá uma resposta, e o reajuste de preços pode ser uma ferramenta limitadora da demanda, que coibirá a voracidade de alguns em prol de outros. No entanto, coitado do vil empresário que aumentar o preço do seu produto, muito além do linchamento moral, pode ser autuado pelo Procon.

O governo cede, conversa, propõe, demora 5 dias para decretar desobstrução das vias- em países mais sérios seria no primeiro dia – mas não é o suficiente, então ele cede mais um pouco, e funciona. Sorte dos caminhoneiros e dos donos de transportadora, azar o nosso. Mas para muitos isso também não basta, afinal agora a coisa é maior, como em 2013 começamos com uma coisa pequeninha e transformamos em uma maior, agora está tudo em jogo, vamos acabar com a corrupção, vamos mudar o Brasil, vamos pedir intervenção militar. O povo decidiu, e a coisa é séria, nosso moralista lê com lágrimas nos olhos a confirmação da coisa, o documento é legítimo, há a confirmação dos reservistas babões, e o principal, está no whatsapp, não pode ser mentira.

Para tal é necessário continuar os bloqueios, e já que somos democráticos, atirar pedras e o que mais tiver ao alcance em quem ousar trair a causa, expediente que, na verdade, já estava sendo usado desde o princípio, pois não foi a greve voluntária de todos que fez o país parar, e sim a coação de uns poucos, provavelmente a mando dos patrões. Então o ponto final, o grito por intervenção militar, carrega em si o mesmo espírito de antes, pois o que melhor personifica a conquista pela força, pelo abuso e o ódio ao contraditório do que um clamor por um golpe militar?

A intervenção não veio, a conta chegou, e agora a queixa é que o governo cortou na saúde e na educação para pagar pelo diesel. Ah, bastaria ter cortado os privilégios dos políticos, ter cortado os deputados pela metade e tudo se resolveria, essa é sempre a solução mágica para tudo, para a previdência, para a dívida pública e para nosso déficit de R$160 bilhões. Mas como se falar em corte de privilégios para pagar justamente a criação de privilégios classistas?

Façamos um esforço então, vamos cortar os privilégios dos políticos e das demais alçadas do poder público, e então o que faremos com o dinheiro? Lembremos que temos tido déficit primário desde 2014, que a previdência é deficitária e que temos necessidades sociais a serem atendidas. Ah, já sabemos, vamos subsidiar os combustíveis, esse sim é um bom uso do dinheiro público.

Mas o problema é que temos muitos impostos, dirão, então os caminhoneiros lutaram contra a alta carga tributária. Qual o resultado imediato da “luta” dos caminhoneiros? O retorno à estúpida política de subsídio do combustível, uso de uma estatal para manipulação de preços, o retorno ao famigerado tabelamento de preços, com direito a fiscalização para saber se os postos estão cumprindo a regra, um verdadeiro remix dos anos 80 e do Plano Cruzado. Em pleno 2018 retornam os fiscais do Sarney.

O resumo da ópera, da nossa tragicomédia é que o povo quer preço de concorrência mantendo o monopólio; quer pagar menos impostos sem fazer reformas; quer subsídio classista sem pagar a conta; quer escassez como forma de barganha e preços baixos ao mesmo tempo; quer liberdade econômica e tabelamento de preços. Nós não entendemos nada, continuámos achando que o exército deve tomar o poder a cada turbulência, que o petróleo é nosso e que o almoço é grátis. Por ora, infelizmente, o desenvolvimento do Brasil não cabe em nossas contradições.

Gabriel Wilhelms

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