Sem apropriação cultural não há cultura

Texto de Gabriel Wilhelms.

Nos últimos dias a internet se mobilizou em torno do caso da moça que foi abordada e criticada por uma mulher negra por estar usando um turbante. O argumento é de que isso seria uma “posse” da cultura africana e logo a moça (que era branca) estava se apropriando indevidamente de algo que não lhe dizia respeito. O fator mais sensibilizador e que fez o caso virilizar foi a resposta que a moça deu e a razão pela qual ela usava o turbante que pode ser resumido numa única palavra: “câncer”.

A maior parte dos comentários que presenciei nas redes sociais foram em apoio ao direito da moça em usar o que ela quisesse, mas houve quem insistisse na tese de que o fator câncer não era uma “desculpa” para ela se apropriar da cultura alheia.

Cultura é talvez uma das palavras que mais enseja significados e definições, algumas inclusive de cunho filosófico, tamanha a relevância e elasticidade do conceito. Porém, ainda que falar em termos absolutistas em qualquer coisa que se refira à cultura seja sempre perigoso, vou me arriscar a fazer uma afirmação que por tão óbvia que é, creio não precisar dispor de maiores delongas: “cultura não tem proprietário”. Oras, não é um fato evidente por si só que a cultura se mistura e sofre um processo de transformação dia após dia? Não é verdade que o mundo, e em especial o Brasil, é um resultado da união e da mistura dos mais variados povos e consequentemente das mais variadas culturas? Não é verdade que esse processo continua ocorrendo e continuará ocorrendo até quando exista humanidade? Como falar de apropriação cultural então? Como uma unidade do todo pode se apropriar de algo que em tese “pertence” ao todo, e o pertencer aqui não é no sentido de propriedade privada que dá o direito de dispor sobre o uso, pois dispor sobre o uso de uma vestimenta, de um adorno, de uma religião, de um dialeto que alguém que faz e determinar quem pode ou não fazer não é outra coisa senão autoritarismo, e traz para a cultura apenas consequências nefastas. O paradoxo aqui é que a morte da “apropriação cultural”, ainda que impossível, seria a morte da própria cultura. Felizmente a natureza é mais forte do que a vontade de alguns grupos autoritários, e enquanto houver humanidade haverá cultura e “apropriação cultural”. Que assim seja.

Gabriel Wilhelms.

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