Salvo engano, aqui ainda é a República do Brasil e não a de Curitiba – parte 2 – Por Gabriel Wilhelms

Notem que da semana passada para cá a postura dos protagonistas dos diálogos divulgados pelo Intercept mudou consideravelmente. Se antes Moro chegou a dizer que não via problema na coisa, agora a postura é a de questionar a veracidade do que lá está posto. É a tática de atacar quem trouxe a público a informação, sobre a qual discorri em minha última coluna. 

 Essa ênfase em questionar a legitimidade do conteúdo é um fator importante a ser notado, pois só o fazem porque sabem que o que lá está posto é inadmissível. Em outras palavras, não basta mais apenas dizer que não há problema nas mensagens, porque para as mentes sensatas é óbvio que há, então resta tentar negar o conteúdo.

 Só lava jatistas fanáticos como Álvaro Dias podem ser capazes de achar normal aquilo lá: “Se verdadeiras essas mensagens, deveriam se constituir em atestado de boa conduta a Moro e Dallagnol”. Quando candidato a presidente Álvaro Dias prometia transformar a Lava Jato em “política de Estado”. Tivesse vencido e cumprido a promessa, institucionalizando o modus operandi execrável que o Intercept nos revelou, o processo legal estaria condenado.

 Por ora Moro segue inabalável no governo, e até em jogo de futebol foi com o presidente, como um sinal de apoio deste. Porém, o que se revelou e se tem a revelar pode minar suas ambições de conseguir uma vaga no STF. Por hábito o Senado consente com a nomeação do presidente, mas tem o poder de vetar se quiser, e com uma conduta tão reprovável na primeira instância, a leitura de uma maioria do Senado poderia ser de que na Suprema Corte poderia fazer coisa pior.

 Claro que toda a discussão em torno deste episódio não precisaria ter cor ideológica. Criticar a postura dos membros da Lava Jato não é coisa de esquerdista. É, ou deveria ser ao menos, uma postura natural para liberais. Infelizmente o que não falta no Brasil são liberais bunda-mole e reacionários travestidos de conservadores. Os liberais bunda-mole silenciam sobre o caso ou são comedidos nas críticas. Os reacionários bolsonarianos, por sua vez, são neste momento a maior fonte de apoio a Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e cia. É que, acostumados a achar coisas com o AI-5 politicamente justificáveis em certos contextos, não conseguem genuinamente encontrar o problema nas mensagens, logo pensam que se faz uma tempestade em copo d’água.

  Há quem afirme que a Lava Jato está sob ataque, que é vítima de uma conspiração. Seguindo essa linha de raciocínio, se poderia mesmo pensar que o erro de Moro foi ter abandonado a magistratura e adentrado o ambiente político, ter ficado sob os holofotes como um membro do novo governo, e por isso, se tornado mais suscetível a ataques. Esta seria uma leitura equivocada,pois Moro não abandonou a magistratura para fazer política, isto ela já fazia muito antes. 

Gabriel Wilhelms

 

 

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