Prisão de suspeitos não muda leitura sobre conteúdo da #vazajato – Por Gabriel Wilhelms

A prisão dos 4 suspeitos de terem envolvimento no hackeamento de
autoridades públicas, em nada altera ou põe em descrédito a leitura sobre o
que até agora foi revelado pelo Intercept e veículos associados.
É preciso fazer uma distinção que muitos tem dificuldades para fazer. O
Intercept nunca revelou sua fonte, seja porque se trata de uma fonte anônima,
seja porque, mesmo se não fosse anônima, o sigilo da fonte é inviolável. Não
há, até o momento, como saber com exatidão se a fonte e o hacker (ou
hackers) são a mesma pessoa, porém não é uma grande novidade que a forma
de obtenção do conteúdo foi por meio de um hackeamento, afinal, os
implicados não enviaram as mensagens espontaneamente e de bom grado
para o Intercept.
Também não é uma grande novidade que hackear é crime, e que cabe às
autoridades investigar e levar a justiça eventuais suspeitos e acusados. A
questão é que o crime, que todos já sabiam ter ocorrido, não respinga de forma
alguma nos veículos que divulgaram as mensagens. Isso acontece porque, ao
contrário dos sonhos anacrônicos de alguns, nós vivemos em um país com
garantia constitucional para a liberdade de imprensa, que tem o sigilo da fonte
como um dos pontos mais importantes.
Há quem esteja apostando na retórica de que as prisões desmoronaram a
credibilidade do conteúdo revelado pela #vazajato. Já discorri aqui sobre a
mudança de postura de Moro, Deltan Dallagnol e demais implicados, como a
própria força tarefa da Lava Jato, que se num primeiro momento diziam não ver
problema no conteúdo, agora sugerem adulteração nas mensagens. Fazem
isso porque sabem que não há condições de dizer que o conteúdo é
verdadeiro, pois se trata de uma relação promíscua entre juiz e acusação.
Notem que sugerem a possibilidade de adulteração, mas em nenhum momento
afirmam que o que está lá é mentira.
Sérgio Moro, ministro da pasta a qual está subordinada a Polícia Federal, é
quem mais tenta capitalizar em cima das prisões. Em seu twitter escreveu o
seguinte na última quarta-feira: “Parabenizo a Polícia Federal pela investigação
do grupo de hackers, assim como o MPF e a Justiça Federal. Pessoas com
antecedentes criminais, envolvidas em várias espécies de crimes. Elas, a fonte
de confiança daqueles que divulgaram as supostas mensagens obtidas por
crime”. Eis a insistência em desacreditar as mensagens, cuja veracidade não
nega, atacando a suposta fonte. Suponhamos que a fonte fosse o capeta em
pessoa, isso tornaria o conteúdo menos crível? Não houve pessoa implicada
nos vazamentos que até agora tenha publicado mensagens salvas que provem
uma edição fraudulenta por parte da fonte ou do Intercept.
Sérgio Moro ficou tão eufórico, querendo limpar sua barra, que até telefonou
para autoridades que teriam sido hackeadas para informá-las, chegando a
afirmar para uma delas que as mensagens apreendidas seriam “destruídas”.

Primeiro que, mesmo ministro da Justiça Moro não poderia ter acesso às
informações do inquérito. Segundo que não compete a ele, e, sim, a justiça,
determinar ou não a destruição das mensagens. O fato de ter tido acesso ao
inquérito revela uma interferência indevida na Polícia Federal, que mesmo
subordinada ao MJSP tem autonomia. Aliás, sempre foi um fato repetido por
muitos policiais federais que a instituição ganhou e gozou de autonomia
durante a era petista. Ironicamente, a ânsia do ministro em se defender das
suspeições que sobre ele recaem, de que não agia na confirmada da lei, o faz
agir somando outras violações para a conta.
Mas a violação suprema, pelo menos em termos de truculência e desrespeito
a democracia, veio do presidente Bolsonaro. Comentando a portaria publicado
por Moro que estabelece a possibilidade de deportação de indivíduos
estrangeiros considerados “perigosos”, Bolsonaro disse que Glenn não se
encaixaria nas regras. Segundo o presidente, Glenn, que é casado com o
deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) e tem dois filhos adotivos, é
malandro pois “para evitar um problema desse, casa com outro malandro e
adota criança no Brasil”. Se a declaração já não fosse nojenta o suficiente, o
presidente contrapõe que Glenn “Talvez pegue uma cana aqui no Brasil.”
A fala do presidente, ainda que ele não tenha poderes de ditador para sair
ordenando a prisão de desafetos políticos, é um ataque à liberdade de
imprensa, e um ataque à liberdade de imprensa é sempre um ataque à
democracia.
Até o momento o Intercept Brasil já fez parcerias com Veja, Folha de S. Paulo
e o jornalista Reinaldo Azevedo, para publicação das mensagens. Os parceiros
tiveram acesso ao material, o qual puderam analisar. A despeito de
comentários de bolsominions enfurecidos, que rotineiramente despejam seu
rancor nas redes contra a imprensa, que tem por majoritariamente comunista,
trata-se de veículos respeitados e de qualidade insuspeita. No mais, uma
edição fraudulenta nas mensagens seria coisa facilmente rebatida, trazendo
um ônus de humilhação e rebaixamento que duvido que os veículos
aceitassem. Em outras palavras, com hackers presos ou não, não tenho
dúvidas de que o conteúdo é verdadeiro, bem como todas as conclusões dele
derivadas.
Gabriel Wilhelms

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