Políticas salariais sexistas. Será? – Por Gabriel Wilhelms

Sempre na primeira metade de março, nos dias que antecedem e sucedem o dia internacional da mulher, bem como o próprio dia, discussões a respeito das conquistas históricas das mulheres são comuns, mas também é ocasião onde se lamenta o que “ainda falta conquistar”.  É esta última questão, a determinação do que ainda falta conquistar, que costuma ocasionar os debates mais ferozes, sobretudo em tempos de ativismo feminista tão radical.

 Não por acaso, foi divulgada no último dia 07 a pesquisa “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, em que se levantaram dados mostrando que as mulheres ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens, mesmo trabalhando em média 3 horas por semana a mais do que os homens, aí incluídos os afazeres domésticos e cuidados de pessoas além dos trabalhos remunerados em si.

Ora, os dados são esses, mas as conclusões são livres, e elas precisam ser muito cuidadosas para não ser levado a crer no que simplesmente não é verdade. Dizer que as mulheres ganham menos do que os homens, para muitos sugere que em uma mesma empresa, exercendo a mesma função, e trabalhando a mesma carga horária, uma mulher recebe menos do que um homem simplesmente por ser mulher. Essa é uma conclusão errada do dado, mas é uma conclusão fruto da propaganda dos que nos querem fazer crer que é assim que a coisa se dá.

 De uma maneira “geral”, e a palavra geral é chave aqui, as mulheres ganham menos do que os homens, considerando assim as rendas gerais de homens e mulheres exercendo diferentes funções, desde funcionários(a) de serviços gerais até grandes executivos(a). Não é, portanto, correto pensar que essa diferença se dá por uma política salarial discriminatória, o que até poderia ocorrer em alguns casos, não por diferenças de sexo, mas por critérios meritocráticos, mas isto não é o foco aqui.

É curioso que o próprio estudo canta a pedra, e aponta que essa diferença se dá principalmente pelo fato de as mulheres terem, muito mais do que os homens, empregos de jornada parcial, o que se reflete na remuneração. Isso ocorre, creio eu, por serem as mulheres, muito mais do que os homens, que se encarregam de atividades domésticas e do cuidado dos filhos. Também há como fator complementar o fato de que há um grande número de mulheres que interrompem sua carreira, quando não a abandonam por completo, quando têm filho(s).

 Ora, mais o fato de essa diferença de se dar pelas mulheres ainda carregarem responsabilidades domésticas muito maiores do que os homens carregam, apesar de ambos serem responsáveis pela família e pelo lar, não é explicada pelo machismo? Há dois vieses aqui. O primeiro é que para o objeto do estudo, que é a diferença salarial entre homens e mulheres, informação que como mostrei sempre leva a uma conclusão errônea, as atividades exercidas pela mulher fora do âmbito profissional não tem importância. Se a questão é tratar de machismo histórico, cultural e enraizado, não faz sentido falar disso dando a entender que as empresas estão praticando amplamente uma política salarial sexista, o que reafirmo, não é verdade. Sendo assim, não faz nenhum sentido dizer que as mulheres “ganham menos”, apesar de se sobrecarregarem com atividades domésticas, pois obviamente isso ocorre fora de seus respectivos trabalhos e não é obrigação da empresa compensá-la por coisas que nada tem a ver com a empresa e dizem respeito a sua vida privada.

O outro viés é que sim, ainda somos uma sociedade muito machista, e isso se personifica de muitas formas. Agora, é preciso ter cuidado ao determinar até que ponto é o machismo o responsável por determinar as escolhas pessoais das mulheres. Não é correto pensar, como as feministas mais radicais parecem pensar, que toda dona de casa ou toda mulher que opta por passar algum tempo em casa com seus filhos, o faz por causa da sociedade patriarcal.

Na ânsia de eleger culpados para os “incômodos estatísticos”, acaba-se por ignorar razões históricas e motivações pessoais, normalmente associadas com a diferenças entre homens e mulheres. Há fatores físicos e biológicos concernentes a maternidade, e que não se fazem presentes na paternidade, que vão muito além de fatores culturais e explicam a necessidade que muitas mulheres sentem de dar uma pausa para cuidar dos filhos ou para lidar com a gravidez. Mas é preciso colocar alguém na berlinda, e comodamente opta-se por colocar as empresas, o mercado, enfim, os responsáveis pela fantasiosa política salarial discriminatória.

O que ninguém percebe é que a alternativa que está sendo dada por quem quer monopolizar a legítima luta das mulheres por espaço, é um mundo em que essa luta se tornará insignificante fora do coletivo, fora de uma agenda baseada na defesa de coisas como cotas parlamentares para mulheres. O único caminho verdadeiramente possível para o verdadeiro empoderamento das mulheres, se quiserem usar essa expressão odienta, é o do individualismo, e o do respeito pelas escolhas individuais das mulheres.

 

Gabriel Wilhelms

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