Os “amigos de Temer” e a prudência que nos falta- Por Gabriel Wilhelms

Em maio do ano passado escrevi aqui que: “Em qualquer cenário que resulte em seu afastamento, causando uma incerteza e insegurança para o país sobre o que acontecerá, a única atitude decente de Temer seria a renúncia, permitindo assim a realização de eleições indiretas como manda a Constituição.”

 A ocasião foi o episódio em que foi amplamente divulgado que Temer teria participado de uma conversa, gravada por Joesley Batista, em que dava seu “aval” para a compra do silêncio de Eduardo Cunha. Portanto, escrevi o transcrito acima com base no que era naquele momento uma hipótese. Após isso o áudio foi divulgado, e o país inteiro escutou esperando encontrar a prova cabal de que o presidente havia conspirado para comprar o silêncio de Cunha. Nada havia ali. Também em maio, um par de semanas depois do ocorrido, eu escrevei um texto intitulado “Sinais de Fogo de Uma Conspiração”. Mantenho tudo o que disse nesse texto, e acrescento, havia um notório desejo de Rodrigo Janot em derrubar Temer a qualquer custo.

O episódio, fruto da delação dos irmãos Batista, rendeu duas denúncias, ambas rejeitadas pelo Congresso. Agora o inquérito que investiga se houve pagamento de propina para que o decreto dos portos beneficiasse determinadas empresas do setor pode gerar uma terceira denúncia contra Temer. Nesta quinta, foram presos temporariamente, entre outros, José Yunes, advogado que é amigo e ex-assessor do presidente, o ex-coronel João Baptista Lima, também amigo de Temer, e Antônio Celso Greco, o proprietário da Rodrimar, empresa que teria sido a beneficiada com o decreto dos portos.

Bom, o conjunto da obra é propício para que se diga que o cerco está se fechando contra Temer, mas porque exatamente? Seria a prisão dos “seus amigos” uma maneira de mandar um recado? Espero que não, pois justiça que se ocupa de mandar recado não cabe em uma democracia.

A prisão temporária foi um instrumento usado para contornar a proibição, feita pelo ministro Gilmar Mendes, do uso da condução coercitiva na fase de investigação, e é muito possível que isso se torne um argumento do tipo “não teríamos que prender se pudéssemos conduzir coercitivamente”. Ocorre que a referida decisão do ministro só fez cumprir a lei, a qual diz que ninguém será obrigado a comparecer para depor na fase do inquérito, tornando obviamente a condução coercitiva usada para esse fim completamente ilegal.

Infelizmente no Brasil o errado vira certo muito rapidamente, desde que seja sob o rótulo do combate a corrupção, e dado que a condução coercitiva foi – ilegalmente – usada em larga escala pelo operação Lava-Jato, sendo o caso mais famoso o que envolveu o ex-presidente Lula, acostumou-se a acreditar que estava tudo certo. O mesmo ocorreu com a questão da prisão após a segunda instância, bastou o STF tomar uma de suas decisões picotando a CF e agora vários boçais irão às ruas no dia 03, temerosos que estão de que Lula não seja preso, exigindo aquilo que claramente a constituição proíbe.

Se a denúncia vier de fato, vejamos se há razão de ser, mas não vou adotar esse juízo de valor barato que acha que todos os políticos são culpados de alguma coisa, o que tem feito tanto mal ao nosso país. Se a gravação do Joesley Batista tivesse confirmado aquilo que ele fez divulgar (para lucrar comprando dólar), eu seria o primeiro a ir para as ruas pedir a renúncia, mas a coisa toda para mim não passou de uma farsa montada. Meu ceticismo tem, portanto, sua razão de ser, e não é ele a crença na santidade do presidente e de nenhum outro fulano, mas naquela escassa virtude chamada prudência. Por ora, lembremos que o decreto dos portos beneficiou contratos feitos a partir de 1993, o que não é o caso da Rodrimar.

Gabriel Wilhelms

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