O vencedor não leva tudo – Por Gabriel Wilhelms

Certos aspectos do governo Bolsonaro me fazem lembrar o título de um dos grandes sucesso do ABBA, “The Winner Takes it All”, em português: “O vencedor leva tudo”. Claro que a canção não é devotada a trâmites políticos, mas o governo Bolsonaro realmente parece querer incorporar o mantra.

Tendo sido eleito, tendo tido o aval da maioria de votos válidos, Bolsonaro parece pensar que tais votos representam uma procuração para fazer tudo que lhe der na telha, e tendo apresentado suas predileções ideológicas ao longo da campanha e ao longo de sua carreira política, parece entender que o fato de ter ganhado significa que recebeu um aval para governar exclusivamente para aqueles que pensam como ele, que seguindo essa lógica, representariam a maioria.

Claro que não se trata de maioria, pois não havia “pureza ideológica” na maior parte dos votos que o colocaram no planalto, para isso concorreram principalmente o temor do retorno do PT, e o clima lava-jatista contra a “velha política”.

Elegeu-se um presidente, mas há quem pense que também foi eleito um historiador, um revisor. É a única coisa que explica as recentes comemorações do golpe de 1964, autorizadas pelo governo federal, e as declarações de membros do governo de que não houve golpe em 1964 e de que do mesmo modo não houve ditadura militar no Brasil.

Neste espírito, foi divulgado pelo canal oficial da Presidência, no dia 31 (aniversário do golpe) um vídeo que defende a tese absurda (de que não houve golpe), com o adendo de que até o momento o Planalto recusou se manifestar sobre o assunto. Não que a manifestação do Planalto seja necessária, uma vez que em telegrama enviado à ONU, em resposta a questionamentos do relator especial da ONU Fabian Salvioli, sobre a intenção do governo em comemorar o golpe, o Planalto é categórico em afirmar que “não houve golpe de estado em 31 de março de 1964”, e ainda que os 21 anos de “governos militares” (leia-se ditadura foram necessários “para afastar a crescente ameaça de uma tomada comunista do Brasil”.

O agora quase-exonerado ministro da educação, Ricardo Vélez, que também é dos que acreditam que não houve golpe/ditadura, já anunciou a intenção de revisar os livros didáticos quanto ao golpe: “haverá mudanças progressivas à medida que seja resgatada uma versão da história mais ampla”. Resta saber se o provável substituto de Vélez terá a mesma militância.

Só a arrogância que para alguns vem com a vitória, pode explicar a crença de que um governo eleito tem a prerrogativa de impor a visão de mundo do mandatário e de contrariar fatos concretos e de conhecimento público. É esta mesma visão de mundo que motiva Bolsonaro a se intrometer em um conflito histórico entre Israel e Palestina, seguindo o (mau) exemplo de Trump, que não atende questão estratégica/econômica alguma, e tão somente as expectativas de apoiadores evangélicos.

O vencedor tem poderes amplos, tem uma grande missão, diria, mas ele não “leva tudo”, e nem está em posição, se quiser de fato governar, de governar apenas para uns. Governar implica, de fato, alienar parte da sua individualidade, pelo menos num período determinado, e entender que não opina mais como cidadão ou deputado, mas no caso presente, como presidente. Bolsonaro parece pensar que ainda está na câmara, onde sempre corria para acionar sua imunidade parlamentar quando pronunciava suas besteiras. Como presidente ele pode continuar pensando as mesmas besteiras (seria melhor se não), mas não deveria fazer mais do que pensar e as transformar em ações que podem prejudicar o país que ele diz estar “acima de tudo”, ou ridicularizá-lo mais do que já ridicularizou.

Gabriel Wilhelms

 

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