O plano de governo de Bolsonaro e os pseudo-liberais- Por Gabriel Wilhelms

Jair Bolsonaro lançou seu plano de governo. Sei que o que faz muitos segui-lo é sua histórica naturalidade para polêmicas, que muitos podem ver como “sinceridade” e a partir daí presumir que Bolsonaro é o único candidato que ousa dizer o que pensa, enquanto os demais, pelo menos os mais tradicionais, não respiram sem orientação de seus marqueteiros. Nesse cenário, Bolsonaro romperia com a política tradicional por não ser falso.

Ora, a sinceridade, muito embora seja uma virtude, não é um fim em si mesmo, sobretudo quando ela traz ideias realmente ruins. O político não tradicional, que está há 30 anos na câmara e se orgulha de dizer que nunca fez parte do executivo, muito embora concorra para o mais alto posto do executivo, talvez devesse ser melhor assessorado. Importa o que se diz, mas também como se diz.

Evidente que Bolsonaro não escreveu o plano de próprio punho, mas ao ler a coisa, podemos sentir sua conotação. A exceção se faz, talvez, para questões de economia, área que o candidato deixa para seu “posto Ipiranga”, Paulo Guedes.

Logo no início, a primeira frase que lemos, e que se repete no topo de todas as 81 páginas do documento é: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Eis o lema de sua coligação. Bolsonaro de fato desdenha dos votos dos laicistas, mas os ajuda, no caso dos indecisos, a eliminar possibilidades. A frase carimba a incoerência de seu discurso, que no documento fala muito em liberdade, pois sabemos pela experiência prática brasileira, que políticos que se elegem tomando o nome de deus, nunca se convertem em defensores de liberdades sociais, muito pelo contrário. Embora não invoque, como o Cabo Daciolo, “glória a deus” nos debates, há também ali o mesmo teor de teologia da prosperidade, associado com o crescimento do país: “2019 será o ano da mudança. Nossa vitória contra a servidão!” Talvez isso se deva a sua proximidade com Magno Malta.

 Bolsonaro tenta unir seu reacionarismo no campo social, o que explica o aceno para os setores religiosos, com uma política econômica liberal. O risco que há, é de que ele consiga atrair esses ditos liberais, que se definem como “liberais na economia e conservadores nos costumes”, moda originada, creio eu, por Flávio Rocha.

 Bolsonaro não fala da Ursal no plano de governo, mas achou relevante escrever que “Nos últimos 30 anos o marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo, se uniu às oligarquias corruptas para minar os valores da Nação e da família brasileira.” Curioso essa crítica ao que ele entende como uma estratégia da esquerda de atingir o socialismo não mais por revoluções por armas, mas por meio da cultura, já que Bolsonaro também planeja fazer uma revolução cultural, uma que irá solucionar de vez nossos problemas: “O Brasil passará por uma rápida transformação cultural, onde a impunidade, a corrupção, o crime, a “vantagem”, a esperteza, deixarão de ser aceitos como parte da nossa identidade nacional, pois não mais encontrarão guarida no governo”.  Aí talvez tenha o dedo do general metido a antropólogo, seu vice. Resta saber como o mito irá extirpar a “vantagem” da nossa “identidade nacional”. Será por decreto?

É um prenúncio do que está pela frente, e se você não leu o documento ainda, aí vai mais um spoiler, até a análise da violência no Brasil tem viés ideológico. O elevado número de homicídios do Brasil, por exemplo, entra na conta da esquerda: “Mais de um milhão de brasileiros foram assassinados desde a 1º reunião do Foro de São Paulo”.  

Há todo um esforço estatístico para desafiar a esquerda, e lá na página 25, lemos o título “Contra a esquerda: números e lógica”.  Na sequência se apresentam dados estatísticos a respeito do armamento civil em diversos países, uma resposta ao documentário A Guerra do Brasil, da Globo. Sim, o homem que pretende governar a nação achou relevante que a crítica a um documentário constasse em seu plano de governo. É proposta na sequência uma explicação para a piora no ranking de homicídios de 5 estados brasileiros: “são regiões que passaram a ser governadas pela esquerda ou seus aliados”.

Bolsonaro aprendeu rapidinho a se defender ou defender sua causa, na base da comparação com o que é “menos pior”. Explico. Recentemente não teve o menor constrangimento em admitir que a “Wal”, assessora que trabalhava para ele há 15 anos e que vendia Açaí no horário do expediente, lhe prestava serviços particulares como dar água para seus cachorros. Não disse em nenhum momento que pagava tais serviços por fora, isso porque não pagava, nós pagávamos. Rapidinho os seguidores do “mito” adotaram a velha tática petista, apequenando o ocorrido, dizendo que há políticos que roubam milhões. Bolsonaro faz o mesmo ao relativizar a ditadura militar e o excesso policial, pensa por exemplo que a preocupação com mortes geradas por ações policiais são uma causa ideológica: “enquanto a esquerda está preocupada com as mortes associadas a ações policiais, segundo a Ordem dos Policiais do Brasil (OPB), foram mortos 493 policiais em 2016”.

Bolsonaro pretende proteger os policiais com uma “retaguarda jurídica”. Da última vez que vi Bolsonaro falando do tema, foi quando disse que iria “dar carta branca para policial matar”.  

Mas o esforço em combater a esquerda é coerente com sua promessa de livrar o Brasil do “crime, da corrupção e de ideologias perversas”. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, é autor de um projeto de lei que visa criminalizar a “apologia ao comunismo”. Eis o peso da liberdade de expressão para a família Bolsonaro. O patriarca dedicar voto pelo impeachment a um famoso torturador, em suas palavras: “o terror de Dilma Rousseff”, está tudo bem. Colocar estupro como matéria de merecimento, também.

 Bolsonaro também se queixa que as forças armadas foram as que mais “sofreram” ao ter sua imagem atacada pela doutrinação ideológica de esquerda. É realmente de se dar pena, é tão injusto mentir para as crianças dizendo que nos 25 anos que ficamos sem escolher o presidente e que pessoas eram mortas e torturadas, não tínhamos uma democracia. Mentira da esquerda. Bolsonaro nos esclarece o que de fato aconteceu e nos dá uma aula de história, após relatar vários feitos das forças armadas: “posteriormente, outros heróis impediram a tomada de poder por forças de esquerda que planejavam um golpe comunista no Brasil em 1964”.

Bolsonaro quer chegar ao poder pela via democrática, mas desdenha da democracia. Felizmente ele tem liberdade de defender a ditadura – burrice não é crime – bem como teve liberdade de atacar o governo por anos, sendo da oposição. Pelo que consta nunca foi torturado por divergir. Em um país mais sério, a presença de tal aberração em um plano de governo seria o suficiente para o ostracismo do candidato, mas por aqui idiotas vão às ruas pedir por ditadura.

E quanto a economia? Sei que muitos “liberais” ficaram encantados ao ler as propostas econômicas do documento, mas nada pior para o liberalismo no Brasil do que o dogmatismo panfletário. Permitir que Bolsonaro, com toda sua hostilidade a democracia, aos direitos humanos, a liberdades sociais, e a laicidade do estado, seja o porta-voz de um suposto liberalismo, é pedir para aquilo que está crescendo nos últimos anos e pode representar uma grande guinada política, morra na praia. Há, no entanto, coisas controversas ali: “A área econômica terá dois organismos principais: o Ministério da Economia e o Banco Central, este formal e politicamente independente, mas alinhado com o primeiro”. Ora, alinhado em que sentido? Se ele será independente, ele não deverá receber demanda de nenhuma ordem do executivo.

 O documento deixa bem claro que Paulo Guedes, vulgo posto Ipiranga, será uma espécie de presidente 2.0: “as instituições financeiras federais estarão subordinadas ao Ministro da Economia”. Resta saber o que se pretende com essa subordinação. A CEF já é hoje ligada ao Ministério da Fazenda, mas possui, pelo que consta, autonomia administrativa. Já o Banco do Brasil é uma empresa de economia mista, não subordinada a Fazenda. Ao invés de reforçar a autonomia administrativa dessas empresas pretende-se dar mais controle político a elas? Vale notar que esse movimento nem Dilma tentou, abertamente.

O documento não se furta de tratar de nosso problema econômico mais urgente, que é o fiscal, e promete que: “o déficit público precisa ser eliminado já no primeiro ano e convertido em superávit no segundo”. Como ele operará essa mágica em tão pouco tempo – a estimativa do FMI é que só voltemos a registrar superávit em 2022 – o documento não responde.

 Ainda na área econômica, há a proposta de se instituir uma renda mínima para todas as famílias, acima do valor do Bolsa Família. Curioso a mudança de posição, uma vez que ao longo da gestão petista Bolsonaro se destacou como um contumaz crítico do programa. Para justificar a ideia da renda mínima, se aponta as raízes liberais da mesma, como a defesa de Milton Friedman do Imposto de Renda Negativo. Ocorre que há uma diferença entre complementar a renda de quem necessita, como hoje faz o Bolsa Família, e de prover uma renda mínima para todos, ideia que com certeza seria desastrosa. Bolsonaro não diz como financiaria a coisa.

No entanto, para que não se diga que apenas critiquei o programa, há pelo menos uma proposta interessante: “Será criado o BALCÃO ÚNICO, que centralizará todos os procedimentos para a abertura e fechamento de empresas. Os entes federativos teriam, no máximo, 30 dias para dar a resposta final sobre a documentação. Caso não dessem a resposta nesse prazo a empresa estaria automaticamente autorizada a iniciar ou encerrar suas atividades.”

Que esse documento não seja entendido como um manifesto liberal, liberdade econômica deve estar alinhada com liberdade social, e um candidato que carrega um slogan religioso e faz elogios a uma ditadura que maculou a história de nosso país, não é e nem nunca será liberal. Seus seguidores fiéis, os que dizem amém para tudo que o mito fala, podem no máximo serem reacionários que querem pagar menos impostos, mas não liberais.

Por Gabriel Wilhelms

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