O memorando da CIA, mais um infeliz capítulo de nossa história- Por Gabriel Wilhelms

A divulgação do memorando da CIA, relatando um encontro entre o então presidente Geisel, João Baptista Figueiredo, na época chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) e futuro presidente, e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, ambos do Centro de Inteligência do Exército (CIE), causou rebuliço no país. Segundo o documento, nesse encontro, ocorrido em 30 de março de 1974 o general Milton defendeu a continuidade dos métodos “extralegais” contra subversivos perigosos. No ano anterior, 104 pessoas que estavam nessa categoria teriam sido executadas pelo CIE.

Geisel teria pedido um tempo para pensar, e no dia 1º de abril deu sua resposta, dizendo ao general Figueiredo que as execuções deveriam continuar, com o adendo de que se deveria assegurar que apenas subversivos perigosos deveriam ser executados, e que todas as execuções deveriam ser aprovadas por Figueiredo.

O documento, tornado público recentemente pelo governo americano e revelado pelo pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, foi definido pelo mesmo como “o documento mais perturbador que já li em 20 anos de pesquisa”. E não é para menos, seu sentimento aliás deveria ser compartilhado por todos os demais brasileiros. Infelizmente a ignorância impede que assim seja.

Há quem fale que se trata de fake news e de uma tentativa de descredibilizar as candidaturas dos militares que pretendem concorrer este ano. Há ainda os que não duvidam do documento, mas apoiam a decisão de Geisel, dizendo que deveriam ter matado mais. Da parte da esquerda, também há a afirmação de que se trata de uma prova de que o regime militar de alguma forma era controlado pela CIA e pelos EUA. Ora, não há informação de que como se teve acesso a essa conversa, mas estamos falando do serviço secreto americano, e é sensato pensar que eles tinham meios para espionar o Brasil e o que por aqui acontecia em termos de combate aos comunistas, isso em especial no contexto da Guerra Fria.

O fato de que entre os guerrilheiros não havia gente interessada na democracia e que intencionavam impor uma ditadura de molde comunista, não justifica o regime de exceção instalado no país, seja por que a barbárie não justifica a barbárie como resposta, seja porque muitos que nada tinham a ver com as atividades “subversivas”, acabaram vítimas dos algozes da ditadura.

Vale lembrar que não havia em 1964 uma ameaça guerrilheira, o golpe se deu por um temor da radicalização do governo de João Goulart, mas não para proteger o país de guerrilheiros comunistas. Estes surgem, provavelmente, alimentados com o espírito e a desculpa de derrubar uma ditadura (ainda que para implantar outra), tal como os guerrilheiros de Sierra Miestra, em Cuba, e por isso, são injustamente reverenciados por muitos como heróis da democracia.

Tivéssemos uma democracia naquele momento e começassem a pipocar por aqui atividades guerrilheiras/terroristas, e fosse a resposta firme, mas dentro da lei, não seria possível construir uma narrativa na qual estes guerrilheiros se tornariam heróis, seriam simplesmente considerados como baderneiros, inimigos da democracia. Não foi o que aconteceu, e se parte do mainstream político brasileiro foi formado por essas figuras após a redemocratização, agradeçam aos militares.

A democracia é sempre o melhor remédio, e não há o que justifique o contrário, e este memorando é mais um capítulo trágico da nossa história (recente) e do quanto precisamos evoluir em compreensão do processo legal e do Estado de Direito.

Gabriel Wilhelms

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