O devaneio do peso real – Por Gabriel Wilhelms

O governo Bolsonaro é de fato um poço de contradições. Historicamente o presidente nunca foi um grande fã do Mercosul, o qual já acusou de ser operado pelo “viés ideológico”. O mesmo vale para o ministro da Economia Paulo Guedes, que logo após a eleição de Bolsonaro afirmou que o bloco não seria uma “prioridade”. Notadamente, a predileção do presidente tem sido alargar as relações com os EUA. Ademais, o bolsonarismo é refém dos cacoetes antiglobalistas de Olavo de Carvalho. Levando tudo isso em conta, é no mínimo irônico que Bolsonaro avente a hipótese de uma moeda única com a Argentina e com o resto da América do Sul. Mais irônico ainda por dizer que a coisa tenha partido de uma sugestão de Paulo Guedes.

Essa é uma daquelas coisas que faz parecer que Jair Bolsonaro quer a todo custo realizar feitos que marquem seu governo de alguma forma, por pura megalomania. Qual o nexo de uma moeda unificada com a Argentina e outros países latinos? Não vejo nenhum.

O real é uma história virtuosa de sucesso porque ele é emblemático, sendo após diversos planos falidos de contenção da inflação, o único que logrou êxito e estabilizou nossa economia. E olha que nossa economia e política doméstica tem se mostrado bastante conturbada nos últimos tempos, não sendo necessário ou inteligente acrescentar a isso os riscos inerentes a uma moeda unificada, com o histórico de instabilidade fiscal e econômica de certos países latino-americanos, dentre os quais a Argentina é um dos maiores exemplos.

Há quem diga que o assunto é precoce, mas que poderia ser cogitado no futuro. Bom, muita coisa pode mudar, mas não vejo no presente qualquer indicativo de que devamos cogitar isso a qualquer tempo.

Como sempre, o presidente não poderia deixar de dar seus pitacos ideológicos e disse que a tal moeda poderia servir como uma “trava para aventuras socialistas no continente”. Faz sentido para a retórica do presidente, que deselegantemente e irresponsavelmente tem tecido comentários sobre um possível resultado eleitoral das eleições que se aproximam na Argentina, em que Cristina Kirchner poderia sair vitoriosa. De maneira apocalíptica já sugeriu que a vitória da ex-presidente poderia produzir “outra Venezuela mais ao sul”. Não é o tipo de fala que deve publicamente sair da boca de um presidente da república, sobretudo quando se refere ao nosso terceiro maior parceiro comercial. Pode até achar que sua carreira como palpiteiro político foi prolífica enquanto era deputado, mas este não é mais o caso.

 A proposta parece ter causado ânimo no lado argentino. Resta saber se, temeroso de que tenhamos uma “outra Venezuela”, Bolsonaro não tenta de alguma forma ajudar a candidatura de Macri com uma ideia cujo destino é morrer na praia. Claro que sempre há a hipótese de ser um movimento impensado, mais um dos devaneios de quem não tem a mínima ideia de para onde está indo, mas insiste que conhece o caminho.

Gabriel Wilhelms

 

Deixe sua opinião