O buraco é bem mais embaixo – parte 2 – Por Gabriel Wilhelms

Do outro lado está o PT. Destaco mais o nome do partido do que do candidato, porque nesse caso um se sobressai sobre o outro. O fato de disputar o segundo turno com um extremista como Bolsonaro, fortifica uma retórica da esquerda que coloca Haddad como o antídoto contra o autoritarismo, e o voto em Bolsonaro, como ódio gratuito contra o PT, contra o partido que “tirou” milhões da pobreza, o que no fundo seria um ressentimento das classes mais abastadas, ódio ao pobre. Nada mais longe da verdade. Assim como Bolsonaro, o PT merece a rejeição que tem.

O PT é o partido que mais tempo esteve no poder desde a redemocratização. Estaria completando o 4º mandato consecutivo, não fosse o impeachment de Dilma em 2016. Esta é a primeira coisa a se notar de imediato. Muitos que rejeitam o partido, estão antes de tudo fartos do partido. Aqui entram muitos ex-petistas, que se viram frustrados pelas ações do partido no poder.

O primeiro grande escândalo que maculou a imagem petista, foi o escândalo do mensalão. Mais apenas do que apenas um escândalo de corrupção, tratou-se de um esquema de compra de votos de parlamentares. Vale lembrar que isso não impediu a reeleição de Lula, que havia feito um bom primeiro mandato, devido ao fato de ter feito o inverso do que defendeu a vida inteira. O PT que assumiu o planalto em 2003 foi um PT mais moderado, alinhado ao centro e mesmo à direita, que manteve o tripé macroeconômico de FHC, e que absorveu três programas sociais do governo predecessor- anteriormente criticados por Lula – em um único programa, que recebeu o nome de Bolsa Família. A partir daí o partido seria bem-sucedido em construir uma narrativa na qual, como hoje diz Haddad: “nós fomos os primeiros a colocar o pobre no orçamento”. Não é verdade, como a história mostra.  Mesmo reeleito, a imagem do partido estava maculada. Era apenas o começo.

Foi a partir de 2008, que, para fazer frente a crise dos subprimes, o governo Lula passou a adotar uma política de incentivo a setores específicos da economia. Ainda popular, Lula conseguiu eleger Dilma, o “poste”, que levaria essa política a níveis ainda mais radicais. No lugar do tripé macroeconômico, adotava-se o que ficou conhecido por “nova matriz econômica”. As consequências nós já sabemos.

No final do primeiro mandato de Dilma, tem início a Operação Lava Jato, com consequências catastróficas, não só para o PT mas para a classe política no geral. A operação desvendeu um esquema de corrupção na Petrobras, que envolvia além do PT, o hoje chamado MDB e o PP, os dois principais aliados do partido à época.  

Dilma conseguiu se reeleger, com estreita diferença entre o segundo colocado, o que deixava bem claro que o PT já não tinha o mesmo espaço e nem a mesma popularidade de outrora. Durante as eleições, Dilma negou a existência de um descontrole fiscal, tentou vender a imagem de que estava tudo bem.

Reeleita, com o ministro da fazenda demitido de antemão e sem apontar qual seria o próximo, não pôde mais negar a crise que havia criado. A conta da política expansionista havia chegado.

Para coroar tudo, enfrenta um processo de impeachment por responsabilidade fiscal, e acaba deposta. A acusação em torno das pedaladas fiscais, tudo tinha a ver com a crise em curso, havia, não era outra coisa senão uma tentativa de maquiar o déficit, usando bancos públicos, controlados pelo governo federal, como financiadores do governo federal, algo vedado pela lei de responsabilidade fiscal.

O impeachment, além de ter fundamento, seguiu todo o rito processual, e vale dizer, foi muito mais longo e burocrático que o impeachment de Collor, o qual ninguém questiona a legitimidade. O PT e as esquerdas passam a investir na retórica do “golpe”, que adotam até hoje.

O PT causou a maior recessão da história. O saldo do desemprego chegou a 14 milhões de desempregados. As pessoas sentiram na pele a consequência da crise. Não ouviram dos dirigentes do partido nenhum pedido de desculpas, nenhum reconhecimento de erro. O plano de governo de Haddad não reconhece em nenhum momento a responsabilidade pela crise, jogando a culpa em Temer, o sucessor a quem coube tentar colocar o trem de volta aos trilhos.

Não obstante isso, segue sem reconhecer a dimensão do problema. No plano também vemos o negacionismo do déficit previdenciário, que deve ser prioridade de quem assumir o planalto em 2019. Como esperar que o partido que destruiu as contas públicas, possa consertar as contas públicas, se ele tem dificuldade em reconhecer a dimensão do problema das contas públicas?

Mas não é só em economia o gargalo deixado pela era petista. O Brasil registrou 60 mil homicídios em 2017. Em 2016 o país registrou uma taxa de 30 homicídios a cada 100 mil habitantes, um número que corresponde a 30 vezes a taxa do continente europeu. Vale notar que a população da Europa em 2016 era de 741,4 milhões, contra 207,7 milhões do Brasil. As pessoas experimentam a violência no dia a dia e ficam acuadas. Isso é uma das razões que explica a ascensão de Bolsonaro, candidato que não propõe nada de realmente revolucionário na área de segurança pública, mas que ganha a confiança pela truculência. O PT, por outro lado, não é capaz de propor uma alternativa para a truculência, afinal, como convencer os eleitores de que o partido que esteve 14 anos no poder e não resolveu, vai resolver agora?

A Venezuela tem um governo não democrático há anos, mas nunca estivemos com os olhos tão voltados para lá como agora, resultado do ápice da crise econômica do país, e dos refugiados que adentram o Brasil. Quem tem bom-senso sabe que o país passa longe de ser uma democracia. Ocorre que os dirigentes petistas não têm bom-senso, e não apenas têm se recusado a atacar o governo Maduro, como tem dado reiterado apoio à barbárie. Isso é fácil de ser conferido com uma rápida busca no site do partido. Se busca sempre culpar a oposição pelo estado lamentável de coisas do país.

Mas não só a Venezuela, o PT sempre se esquivou de chamar o governo cubano do que ele é: uma ditadura. O mesmo vale para todas as experiências autoritárias de esquerda na parte latina do continente americano, que sempre encontraram o apoio, direto ou indireto do partido. No caso Maduro, vale lembrar que Lula chegou a gravar vídeo em prol da candidatura do aspirante a ditador.

A Venezuela só entraria no Mercosul por uma manobra operada por Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, na ocasião da controversa suspensão do Paraguai, que era contrário ao ingresso do país no bloco econômico, devido ao fato de não haver garantias de democracia na Venezuela.

O apoio dos governos petistas a tais países não foi apenas verbal, mas sim de financiador. Neste ano o Brasil teve que assumir um prejuízo de quase R$1 bilhão, por meio do acionamento do FGE (Fundo Garantidor de Exportações). O valor se refere ao atraso do pagamento de dívidas do governo venezuelano com o BNDES e banco privados brasileiros.

 O BNDES, aliás, é estrela destas polêmicas, mas antes de chegar a isso vale frisar o que disse o diretor da área Financeira e Internacional do banco, Carlos Thadeu de Freitas Gomes em depoimento à CPI do BNDES em 2017: “O processo decisório na aérea internacional não depende do banco. O banco executa. São decisões de governo que o BNDES simplesmente executa”.

Alguns exemplos de países  que foram agraciados com os empréstimos do banco, que é bom dizer, é financiado majoritariamente por aportes do Tesouro (nosso dinheiro) e recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), são Angola, cujos contratos foram considerados “secretos” pelo banco; Cuba, cujo caso mais emblemático é a construção do porto de Mariel, com um empréstimo de 683 milhões de dólares do banco de fomento; Zimbábue, país famoso pela nota de “1 trilhão de dólares”, símbolo de sua bagunça econômica; Congo, país que junto a diversos outros países africanos, os quais passam longe de democracias, teve dívidas perdoadas pelo governo governo brasileiro, e é claro, a Venezuela, que tem diversas obras financiadas pelo BNDES. Recentemente, o presidente do BNDES, Dyogo Oliveira declarou que: “Há uma crítica a esses empréstimos e até diria que, olhando hoje, que fica claro que eles não tinham condição de pagar. Provavelmente não deveriam ter sido feitos e agora temos que ir atrás do dinheiro para receber.”

 É patente o apoio do partido, dentro ou fora do governo, a ditaduras contemporâneas, então fica difícil de convencer o eleitorado de que eles são o grande antídoto democrático contra Bolsonaro. Isso que digo, é a leitura de milhões, não a minha. Claro que o PT governou o Brasil por 14 anos e claro que não viramos uma ditadura nem nada parecido, mas há um receio, de parcela da sociedade, diante do fantasma da Venezuela e da proposta crassa do partido de realizar uma Assembleia Constituinte- proposta já abortada por Haddad em sua estratégia de aproximação com o centro.

Por fim, há Lula. Há controvérsia jurídica em torno de sua condenação e prisão, mas esse é um caso para a defesa do ex-presidente. O PT escolheu tornar uma causa eleitoral. Todos sabem que os dirigentes do partido sempre souberam que Lula não seria candidato e que eles teriam todos seus recursos jurídicos frustrados. Mesmo assim, optaram pelo teatro até os últimos minutos possíveis.

Colar Lula em Haddad foi a estratégia manipuladora de Lula para cativar aqueles que, acreditando ou não em sua culpa no caso Triplex, ainda o idolatram. Ignorou que não é tão idolatrado quanto outrora. A imagem do candidato petista que foi para o segundo turno no dia 07, indo na manhã do dia 08 visitar Lula na cadeia, como primeiro ato, para muitos foi imperdoável. Agora Haddad tenta se descolar de Lula, o que certamente estava planejado desde o princípio.

Foi o PT quem escolheu essa situação. Desde o impeachment tem investido no ódio, na cisão. Elaboraram um plano de governo que, no alto da soberba, não reconhece parcela de culpa em nada. Chamam de golpe um processo legítimo, e ao fazer isso, ignoram que colocam todos os cidadãos que apoiaram o impeachment, como inimigos naturais.

 O PT, assim como Bolsonaro, merece a rejeição que tem.

Mas se os dois lados merecem a rejeição, como resolver o paradoxo? A resposta para esta questão não é o que proponho aqui. Os que encaram o dilema entre duas opções terríveis para o Brasil, contemplando ainda opções alternativas como o voto nulo, branco, ou a abstenção, precisam resolver isso no âmbito pessoal. O que não dá é para estimular ainda mais a cisão do ódio, colocando qualquer um dos lados acima da moral. Muitos eleitores terão que votar de uma forma em que nunca cogitaram votar em suas vidas, e não farão isso por prazer, por convicção, mas provavelmente com tristeza, sabendo que o país já perdeu de qualquer forma.

Leia Parte1 aqui : https://wp.me/p7C7PF-8Fg

Gabriel Wilhelms

Deixe sua opinião