O buraco é bem mais embaixo- Parte 1 – Por Gabriel Wilhelms

Que fazer a escolha entre Haddad e Bolsonaro é uma tragédia, eu já havia dito. A tragédia reside no fato de cada qual ser, ao seu próprio modo, garantia de que os próximos 4 anos serão de turbulência e de acirramento do clima de ódio que se instalou no país.

O que cada um dos lados precisa entender, é, que, o momento não cabe em uma leitura superficial, numa dicotomia do tipo “bem versos mal”. Então, se você é um daqueles apaixonados por qualquer uma das partes, vulgo bolsominion ou petista fanático, esse texto não fará diferença pra você. Aqueles que votaram em Bolsonaro e em Haddad no primeiro turno, manterão seus votos no segundo turno, e eventuais mudanças, provavelmente tenderão a zero no resultado das eleições. Não são eles quem decidirão a eleição. Quem decidirá serão aqueles que no dia 07 votaram nos demais candidatos, rejeitando os dois líderes de intenções de votos, e os que se abstiveram ou votaram branco/nulo, caso decidam escolher um dos candidatos.

É entre esses que se encontram aqueles que agora se sentem entre a cruz e a espada, que rejeitam o retorno do PT, com todas suas mazelas, mas também a ascensão de um extremista como Bolsonaro. É um dilema compreensível, e se você não acha compreensível, é porque provavelmente você faz parte de um dos dois grupos dos quais falei acima.

O dado mais importante é que disputam o segundo turno os dois líderes em rejeição. A rejeição de Bolsonaro, às vésperas do pleito, girava ironicamente em torno da porcentagem de votos válidos que ele alcançou: 46%. A de Haddad era um pouco menor, mas igualmente expressiva, e ficava em torno de 41%.

Existe uma razão, ou mais, para cada qual ter sua rejeição. É preciso muito fanatismo para achar que os 46% que rejeitam/rejeitavam Bolsonaro, são compostos exclusivamente por artistas que recebem dinheiro da Lei Rouanet, presidiários e petistas. É preciso também considerável falta de tato para pensar que os 49,2 milhões que votaram nele são todos fascistas e homofóbicos.

Bolsonaro fez por merecer toda a repulsa que recebe. Sua vida pública e suas declarações ao longo de seus quase 30 anos de mandato como deputado federal, construíram uma justa reputação de extremista. Mais do que isso, apesar de falar em galgar a presidência há no mínimo 4 anos, não fez nenhum esforço nesse meio tempo para tornar seu discurso mais moderado, tampouco buscou ter o preparo que se espera de um estadista, tendo, pelo contrário, orgulho de sua ignorância. Ele, por exemplo, diz não entender nada de economia. Sua especialidade seria a segurança pública, ele alega.

  Comecemos por aquilo que mais o “perseguiu” ao longo destes anos. Jair Bolsonaro é um homofóbico. Isso não se discute, e na verdade nem ele discute: “Sou homofóbico sim, com muito orgulho”.  Bolsonaro coleciona diversas declarações homofóbicas, que podem facilmente ser encontradas no “Tio Google”. Citarei algumas:

“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”

“O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e mudar o comportamento dele.”

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.”

Note que não se tratam de piadas de mau-gosto. Acho o politicamente correto uma besteira e um dos grandes responsáveis pela ascensão do capitão reformado, então não o crucificaria por fazer piadas. Não, trata-se de contundente homofobia.

Mas Bolsonaro é um combo, e de onde vem isso, tem muito mais. Protagonizou um dos momentos mais baixos do congresso, dizendo que não estupraria Maria do Rosário porque ela não merecia. Ocorre, que não satisfeito com o episódio, ocorrido em 2003, Bolsonaro repetiu a coisa 11 anos depois, em pleno plenário da casa. Se tentam justificar a primeira declaração pela “ira do momento”, não resta desculpa para a segunda. No entanto, para quem pensava que este poderia ser seu momento mais baixo em sua atuação na Câmara, assistimos enojados ele dedicar seu voto pelo impeachment de Dilma, em 2016 em “memória do coronel Carlos Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.”

Sobre Ustra, condenado em segunda instância como torturador, Bolsonaro  já apelou para o trânsito em julgado em entrevista no Roda Viva: de acordo com a nossa Constituição, ninguém poderá ser declarado culpado sem uma sentença transitada em julgado.  Isso não aconteceu no caso do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra“. A contradição é que Bolsonaro defende abertamente a prisão a partir da segunda instância, contrariando o argumento que usou para defender Ustra. No mais, qual seria o sentido em dizer que ele era o “pavor” de Dilma, senão o reconhecendo como um torturador?

O “cabra-macho” adora falar besteira, e depois dizer que foi mal interpretado e que não disse o que se sabe que disse. Sobre a tortura já disse com todas as letras: “Eu sou favorável à tortura”.

Bolsonaro é um entusiasta da ditadura militar, mantendo inclusive – não sei se ainda mantém – os retratos dos 5 presidentes do regime militar em seu gabinete na câmara. Não faz nenhum esforço para se dissociar da imagem de “viúva de ditadura”, dedicando em seu plano de governo espaço para defender o golpe de 1964, tratando os respectivos golpistas por “heróis”. Já era de se esperar, tendo chamado para vice um general que, ainda na ativa, fez ameaças veladas sobre a possibilidade de uma nova intervenção, o que em países mais sérios, haveria lhe aniquilado qualquer pretensão eleitoral, senão resultado em cadeia.

Um dos apelos de terror no discurso pró Bolsonaro hoje, é de que a outra opção transformaria o Brasil numa Venezuela. Ignoram como se deu a guinada autoritária da Venezuela, que não foi por meio de um golpe de estado – que Chávez chegou a tentar. Lá há um aparelhamento de estado, sendo o judiciário um braço do governo. A proposta mais contundente para fazer coisa parecida aqui, não veio do PT, e sim de Bolsonaro, que falou sobre a hipótese de aumentar o número de ministros do STF, dos atuais 11, para 21, dos quais ele obviamente indicaria 10. A coisa, segundo ele, seria “uma maneira de você botar 10 isentos lá dentro.” A proposta é a coisa mais “bolivariana” posta nestas eleições. Duvido que se quer o Psol tenha vindo com algo parecido.

 Outra coisa que veio do seu “lado”, foi o fato de Mourão ter aventado a hipótese de se elaborar uma nova constituição, feita por “notáveis” ao invés de eleitos pelo povo. Já são duas propostas que visam minar o equilíbrio de forças que hoje garantem que um poder não se sobressaia sobre o outro, uma vinda do capitão reformado e outra do vice.

Para completar, o terceiro grande nome, o posto Ipiranga, também veio com uma. Não satisfeito com a concentração de poder que ele teria, de acordo com o plano de governo, Paulo Guedes quer garantir que quando mandar algum projeto para o congresso, terá esse projeto aprovado com menor resistência. Seria o que ele chama de “voto programático de bancada”, em que se metade da bancada, mais um voto, votasse a favor de um projeto, automaticamente todos os votos daquela bancada seriam computados a favor do projeto, ainda que o restante da bancada desaprove o projeto. Mas Guedes nos tranquiliza, diz que a coisa serviria apenas para matérias de natureza “econômica ou administrativa”, nunca para assuntos de “consciência individual”, como sexo, religião ou aborto. É como se dissesse que em matéria de economia, aqueles eleitos para representar o povo, não tem direito a consciência individual, e nem a representar adequadamente seus eleitores. E vale salientar que o chamado fechamento de questão, que hoje existe, é uma questão partidária, tendo cada parlamentar a prerrogativa de divergir do partido e votar como bem entender.

As três questões supracitadas, uma contribuição autoritária de cada um do trio, se tentadas, seriam sim um risco à democracia.

 Bolsonaro está alinhado com interesses reacionários, conta com o apoio do fundamentalismo evangélico, que é hostil à laicidade do estado. O laicismo deve se somar à lista de coisas que Bolsonaro e seu eleitorado mais fiel não compreende, como direitos humanos, hierarquia militar, art. 142 da CF e democracia. Antes mesmo de ter escolhido o slogan “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.” para sua candidatura, ele já havia declarado “Não tem essa historinha de estado laico não. É estado cristão”.

Seu reacionarismo nesse campo se personifica inclusive em sua atuação como parlamentar. Bolsonaro é coautor do PL 6033/2013, que propõe a revogação da Lei nº 12.845, de 1º de Agosto de 2013, que garantiu às vitimas de violência sexual o atendimento emergencial no SUS. A justificativa é que a lei prepararia o cenário para a “legalização do aborto”, o que é uma grande besteira, decorrente da preguiça dos autores em procurar no dicionário a palavra “profilaxia”. Vale lembrar que o aborto em caso de gravidez decorrente de estupro é legal no Brasil.  Claro que há movimentações, de gente que certamente está/estará ao lado de Bolsonaro caso ele vença, para proibir o aborto mesmo nesta hipótese.

A respeito da violência, embora sua abordagem infeliz a respeito do armamento civil, como proposta da área de segurança pública, seja a mais polêmica, o maior risco vem da conotação que ele pretende dar ao chamado “excludente de ilicitude”, que vale lembrar, já está na lei. A primeira vez que vi Bolsonaro falando sobre isso, foi quando disse que daria carta branca para policial matar.

 Em entrevista ao Jornal Nacional, em agosto, ele declarou o seguinte: Em local que você possa deixar livre da linha de tiro as pessoas de bem da comunidade, ir com tudo para cima deles [dos traficantes]. E dar para o agente de segurança pública o excludente de ilicitude. Ele entra, resolve o problema. Se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele [policial] tem que ser condecorado e não processado.” Para quem não vive no mundo da fantasia de Bolsonaro, é fácil perceber as implicações deste tipo de política. Institucionaliza-se o atira primeiro – de preferência umas 10 vezes – e pergunta depois.

 

Essas são algumas considerações que não podiam ser deixadas de fora, mas que não são – infelizmente – as únicas. Quem, diante de tudo isso, faz a opção de votar em Haddad, mesmo rejeitando o PT, não se torna um “cúmplice da corrupção”, ou tampouco um “comunista”. Se você é eleitor do Bolsonaro, você deve levar tudo isso em conta para entender porque a rejeição ao seu candidato é tão grande, para perceber que ela tem razão de ser. Você pode continuar votando nele mesmo assim, é claro, pode considerar o PT pior, mas se você tiver bom senso, você saberá que razões para odiar Bolsonaro e o que ele representa, não faltam.

Gabriel Wilhelms

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