O Brasil não é ingovernável, Bolsonaro é que não sabe governar- Por Gabriel Wilhelms

Não parece haver limite para o amadorismo de Bolsonaro na execução de suas funções presidenciais, o que, diga-se de passagem, não se resumem ao horário em que está despachando, mas se mantém 24 horas por dia, 7 dias por semana, até a conclusão de seu mandato. O cargo carrega uma certa dignidade, para a qual Bolsonaro não está e nem nunca esteve à altura.

Vejamos o episódio do contingenciamento de verbas do MEC, que gerou protestos em todo o país neste dia 15. O Brasil passa por uma situação fiscal frágil, a reforma da previdência parece engatinhar, e não tendo a aprovação de um crédito de 250 bilhões do Congresso, o governo correria o risco de descumprir a regra de ouro e incorrer em crime de responsabilidade. Nesse cenário, é natural que haja necessidade de contingenciamentos, como já ocorreram em tantos outros governos.

Ocorre que um governo que não fosse formado por gente despreparada, amadora, e ideologicamente fanática da estirpe de Abraham Weintraub, Ernesto Araújo e o próprio presidente, saberia comunicar isso decentemente para a sociedade. Haveria uma reação negativa, como sempre há com contingenciamentos do gênero, sobretudo na educação, mas estaria afastada a hipótese de opção ideológica.

Ao invés disso, o ilustríssimo ministro da Educação começa por anunciar corte de 30% nas despesas discricionárias em três universidades específicas por razões de “balbúrdia”, tendo só depois das reações negativas o corte se estendido mas as demais universidades federais. A perseguição ideológica ficou evidente. Só muito depois disso é que o governo, e o próprio Weintraub começaram a falar sobre a necessidade de contingenciamento, deixando a parte da “balbúrdia” de lado. Já era tarde.

Como disse, há que se reconhecer a fragilidade fiscal do país, e acredito que o embrião dos contingenciamentos tenha sido mesmo o Ministério da Economia, mas sem necessidade alguma, o governo optou pelo combate ao invés do diálogo, e usou a coisa para marcar alguns pontinhos com os fanáticos olavistas que o apoiam. Para coroar os equívocos, Bolsonaro viaja para outro país onde chama os manifestantes de “idiotas úteis”.

O governo não é só incapaz de reconhecer seus erros, como o próprio presidente se esforça para piorá-los. É o problema da patotinha ideológica, do qual falei recentemente.

E essa soma de inabilidade tem um custo político, é claro. Bolsonaro, que age como uma criança birrenta que faz a arte e se mostra indignada com o castigo, pensa que todos deveriam ver com leveza e naturalidade seu preconceito arraigado, sua simpatia por ditaduras, sua falta de postura e decoro. Talvez por isto tenha compartilhado com aliados o texto apocalíptico, cuja autoria tem sido atribuída a um tal Paulo Portinho (candidato a vereador pelo NOVO em 2016), que remete à carta de renúncia do populista Jânio Quadros.

 No texto, repleto de bobagens, Bolsonaro é tratado como um pobre refém de interesses corporativistas, em especial refém do Congresso, como um homem bem intencionado que não consegue governar por causa de “conchavos” e de interesses escusos. Em suma, o problema é como sempre a “velha política”, e Bolsonaro, nesse cenário, seria o outsider ético que não aceita se curvar aos interesses dos vilões.

Conversa para boi dormir. Política é negociação, e negociar não é produto da corrupção como propõe os teóricos do lava-jatismo, em parte responsáveis por colocar Bolsonaro na presidência. Mas, como já vimos, até mesmo para comunicar coisas relativamente simples (embora impopulares), o governo simplesmente opta – ninguém o obriga – para a via do ataque, do fanatismo, do extremismo.

Questionado sobre o que quis dizer com o texto, Bolsonaro respondeu: “O texto? Pergunta para o autor. Eu apenas passei para meia dúzia de pessoas.” Ora, ao “passar” o texto, o presidente deixou claro que concordava com o conteúdo. Um presidente não pode agir como um tiozão que só passa pra frente as fofocas que recebe no WhatsApp, ainda mais considerando o conteúdo em questão.

Duvido que Bolsonaro não soubesse que a carta escaparia de seu círculo de WhatsApp, acho provável mesmo que tenha promovido sua divulgação, com clara intenção populista, daí a semelhança com Jânio Quadros, bem como com a carta suicida e apelativa de Getúlio Vargas. Segue-se um padrão, que é ressaltar as nobres intenções do governo, e atacar instituições que estariam impedindo que essas boas intenções se tornassem concretas, mormente o Congresso e o judiciário. Busca-se com isso angariar a solidariedade popular para que estas marchem contra as instituições e deem alguma validação para a expansão dos poderes do executivo. No mesmo espírito, a família Bolsonaro tenta pintar as investigações contra Flávio como uma forma de ataque ao governo. É o caminho do combate.

De fato, já está agendada para o dia 26 manifestações de “apoio ao governo”, que pretendem rivalizar com as recentes manifestações críticas ao governo. Os manifestantes talvez concordem que o Brasil é “ingovernável”. Não, não é, só tem gente que não sabe governar mesmo.

Gabriel Wilhelms  

 

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