Motorista ou laranja? – Por Gabriel Wilhelms

O caso das vultosas movimentações financeiras do ex-motorista de Flávio Bolsonaro está dando o que falar. Há quem já declare consumada a corruptibilidade da família Bolsonaro. No entanto, é preciso encarar a coisa com cautela. Não sendo dessa forma, corre-se o risco de se confundir análise com torcida.

Sim, a coisa é muito estranha. A quantia movimentada é considerável. O fato de nove ex-assessores de Flávio Bolsonaro terem depositado dinheiro na conta de Fabrício José Carlos de Queiroz, bem como de os depósitos coincidirem com o dia do pagamento na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), ou serem muito próximos a este dia, levanta suspeitas. Por fim, a proximidade direta do motorista com o presidente eleito, dado um depósito de 24 mil na conta de sua esposa, coroa as suspeitas.

Como disse no princípio, precisamos encarar o assunto com cautela. Os fatos devem ser esclarecidos. O que se tem até o momento abre margem à interpretação de que Fabrício seria um laranja da família, e que os verdadeiros destinatários dos valores eram os Bolsonaro.

Vale dizer, que para contradizer esta interpretação, não foi dada nenhuma explicação satisfatória. Para explicar o depósito à esposa, Bolsonaro disse que se tratava do pagamento de uma dívida que o motorista tinha com ele, num total de 40 mil, e que o motorista quitou com 10 cheques de 4 mil reais. Aqui há uma contradição, pois se foram 10 cheques de 4 mil, de onde veio o cheque de 24 mil?

Até o momento Fabrício não deu às caras e tampouco deu uma explicação, e a família Bolsonaro não parece estar lhe cobrando este posicionamento. Flávio, que é senador eleito, disse que conversou com o ex-motorista e que ele contou uma história “bastante plausível”. Flávio disse que não podia dar mais detalhes, a pedido do advogado de Fabrício.

As movimentações não foram na conta do presidente eleito e nem da de algum de seus filhos, mas mesmo que não houvesse o cheque de 24 mil para a futura primeira dama, ainda assim, devido à proximidade, devido ao fato de Fabrício ter sido funcionário do gabinete de Flávio, e devido ao fato de serem eles quem são, os Bolsonaro devem entender porque são cobrados por uma explicação.

Não cabem respostas como a do futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que ironizou o assunto arguindo: “Onde é que estava o COAF no mensalão, no petrolão?”, e disse que “Setores estão tentando destruir a reputação do sr. Jair Messias Bolsonaro”. Este tipo de resposta é estúpida e ruim, sobretudo para quem tenta vender o novo governo como uma virada de página da era petista, sugerindo novos hábitos políticos. Ora, os petistas, convenhamos, levaram mais de uma década para passar a atacar as instituições, e só o fizeram ao sentir o gosto do fundo do poço, após o impeachment de Dilma e a condenação e prisão de Lula. O novo governo nem assumiu e aquele que será o ministro mais importante já acusa instituições de perseguição por produzirem um relatório incômodo?

 Em entrevista à BBC News Brasil o presidente do COAF, Antônio Carlos Ferreira de Sousa, responde aos ataques feitos a instituição. Antônio diz que em 20 anos de existência já foram produzidos quase 40 mil relatórios de inteligência. Apenas para a Operação Lava-Jato foram produzidos, a pedido, mais de mil documentos do gênero. Antônio ressalta que “A Lava Jato começou em 2014, mas o Coaf já tinha produzido 53 relatórios desde 2011 (sobre pessoas depois investigadas na operação)”. O órgão também atuou na operação Greenfield, que investiga desvigo em fundos de pensão. No caso do mensalão, foram gerados 44 relatórios, e o órgão também atuou na CPI que investigou o caso. Sobre isto, Antônio diz: “Nós ficamos integrados tecnicamente, com o corpo técnico, na CPI. E o relatório final, inclusive, recomendava o fortalecimento do Coaf”. Ironicamente, Lorenzoni atuou como deputado na referida CPI, embora pareça ter esquecido do trabalho do COAF.  

 

Outro péssimo argumento dos aliados do Bolsonaro, é o apresentado pelo general de reserva Augusto Heleno, futuro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que disse que “O presidente tá isento disso daí porque não teve participação. O que apareceu dele é irrisório, uma quantia pequena”. Pouca importa qual o valor envolvido, mesmo porque, como já disse, a suspeito sobre a família não recai em função dos 24 mil na conta de Michelle, mas sim em relação ao R$1,2 milhão movimentados em si.

As respostas dadas até agora são insuficientes. Isso não significa que o presidente eleito e seus filhos sejam culpados de coisa alguma. Não me juntarei aos que têm uma visão seletiva da presunção de inocência. No entanto, Jair Bolsonaro precisa ter clareza que para sua eleição pesou e muito a rejeição ao PT e aos seu modus operandi do nós contra eles, do “mas o PSDB isso ou aquilo”, bem como a ratazanas da política nacional como Paulo Maluf, a quem foi associado o bordão “rouba, mas faz”. Os sinais dados por seus aliados, na primeira crise, não são os de quem tem a intenção de fazer diferente

Gabriel Wilhelms

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