“Me cobri com cadáveres para não morrer’, diz sobrevivente do Holocausto

Uruguaio radicado em São Paulo, Francisco Balkanyi, de 88 anos, relembra como escapou da morte durante nazismo; nesta sexta-feira, comemora-se Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Em seu antebraço esquerdo, estão gravados os dígitos 186550, a identificação que lhe fora designada pelos nazistas.

O tempo apagou parte da tatuagem, mas os horrores do Holocausto – o genocídio de 6 milhões de judeus durante a 2ª Guerra Mundial pela Alemanha nazista – permanecem vivos na memória de Balkanyi.

“Éramos apenas um número. Tive de comer cascas de batata do lixo e me cobrir com cadáveres para não morrer”,

Balkanyi é um dos poucos sobreviventes ainda vivos do massacre. Nesta sexta-feira (27), comemora-se o Dia

Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, solenidade instituída pela ONU em 2005.

Em um misto de português e espanhol, ele relembra as privações e torturas pelas quais passou com uma memória invejável, apesar da idade avançada.

Filho único de judeus húngaros, Balkanyi nasceu no Uruguai em 3 de outubro de 1928, mas se mudou para a Europa com os pais, quando tinha apenas um ano.

“Meus avós paternos estavam com saudades do meu pai e insistiam que ele voltasse para a Europa”, diz.

“Fomos feitos prisioneiros e colocados em trens rumo aos campos de concentração”, recorda ele.

A família acabou separada: pai e filho foram enviados para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, enquanto que a mãe foi mantida em outro, em uma cidade próxima.

“Só soubemos do paradeiro de minha mãe e que ela estava viva quando recebemos uma correspondência dela”, conta ele.

“Ela havia conseguido subornar um guarda nazista dando-lhe as roupas de judeus que haviam sido enviados às câmaras de gás”, acrescenta.

As câmaras de gás, aliás, foram o trágico destino de seus avós maternos. O vigor físico de Balkanyi, então com 15 anos, lhe poupou do extermínio.

Mas embora sua saúde o tenha inicialmente salvado da morte, os cerca de 11 meses em que ficou preso em campos de concentração – inicialmente em Auschwitz, na Polônia, e posteriormente em Buchenwald, na Alemanha, cobraram seu preço.

Inicialmente forçado pelos alemães a trabalhar na construção de uma fábrica de produtos químicos, chegou a carregar sacos de cimento de até 50 quilos. Até hoje, por causa disso, sua mobilidade é reduzida.

“Não tinha o que comer. À noite, quando os guardas nazistas iam dormir, eu e outros companheiros íamos roubar as cascas de batata jogadas no lixo. Era delas que nos alimentávamos”, recorda.

Conteúdo BBC BRASIL.

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