Joaquim Barbosa e os “ultraliberais” – Por Gabriel Wilhelms

Filiado recentemente ao PSB e cotado para concorrer à presidente, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que já registra 4º colocação em intenções de voto em pesquisa do Data Folha, ainda é uma incógnita em termos de ideias. No entanto, Barbosa disse há poucos dias em entrevista ao jornal Estado de São Paulo que não é favorável a posições “ultraliberais”. Barbosa completou dizendo que “não é possível ignorar os aspectos sociais do Brasil e meramente aplicar políticas puramente liberais, já que elas não são a solução para a grande miserabilidade que é a nossa marca de origem que nós, aparentemente, insistimos em ignorar”.

Se de fato for concorrer, espero que Barbosa passe a ser mais claro sobre esse e outros aspectos do seu pensamento econômico, em especial o que quer dizer com “ultraliberais”. A fala de Barbosa tem um ar de contraponto, como se estivesse deixando claro que destoa de ideias ultraliberais que estariam em voga. Entendendo a partícula “ultra” pelo que ela significa, denotando radicalismo, extremismo, é seguro dizer que dentre os quase 20 cotados a candidatos para presidente(a), não há ninguém que seja “ultraliberal”. O que mais poderia se aproximar desse rótulo seria o João Amoêdo, mas seria injusto dizer que ele ignora nossa “grande miserabilidade”.

Na verdade, esse debate a respeito do tamanho do nosso estado está com frequência recheado de clichês e preconceitos. Nas eleições de 2014, o candidato do PSC, Pastor Everaldo, parecia em todos os debates responder qualquer pergunta proclamando o estado mínimo. Costumava dizer, como liberal que sou, que o Pastor Everaldo era o pior propagandista do liberalismo econômico que se poderia ter, estava viciado em respostas de slogan, não conseguia aprofundar o debate.

Do outro lado a esquerda, que sempre foi muito mais bem estruturada do que a direita brasileira e ainda mais do que os liberais, faz acreditar, e Barbosa parece crer, que liberalismo não casa com solução para a pobreza, no máximo servindo para países de primeiro mundo que já tendo atingido determinado estado de desenvolvimento podem se dar ao luxo de reduzir seu aparato estatal. A ideia de fundo é de que reduzir o estado necessariamente significa provocar fragilidade social, em especial nas áreas de saúde e educação.

Evidente que um país pobre carece de maior atenção pública para áreas importantes, carece de assistência, de meios para se garantir segurança alimentar, acesso a saúde, educação, etc. Nada impede de se ter tudo isso, e ainda se ter uma economia liberal, digo mais, as coisas se completam e são mais efetivas se assim for.

O estado se abster de ser o carro chefe da economia, de definir como se dará a alocação de recursos, com juros subsidiados para grandes empresas aqui, desonerações para certos setores lá, mantendo uma absurda estrutura de mais de 140 estatais, atrapalhando a vida dos empreendedores, desde os minúsculos de tão pequenos até os bilionários, com um burocracia pornográfica, com uma legislação tributária sádica e por aí vai, nada tem a ver com a promoção da segurança social, que sublinho, deve existir, ainda que a relevância do estado nesse sentido possa diminuir à medida que o país enriquece e que se reduz a miséria.

O que se tem feito há décadas por aqui, é usar a desculpa da nossa histórica miserabilidade para justificar uma atuação desenfreada do estado em setores e de formas que em nada contribuem para a superação dessa miserabilidade. Isso tem raízes históricas, culturais, e não mudou quando a direita esteve no poder a partir de 1964, pelo contrário, só se fez estatizar a economia. E essa é a fórmula, repetida periodicamente, década após década, que ainda não cumpriu o que prometeu.

Espero que quem for eleito(a) compreenda que o estado brasileiro precisa sim sair de cena em muitos aspectos, e que isso servirá para fortificar sua atuação naquilo em que, daí sim, ele precisa ser forte. Não creio haver solução para nossa pobreza que não passe por esse caminho.

Gabriel Wilhelms

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