ÍRIS RENATE VON BUETTNER PASTOR AJUDOU BRASILEIROS A SAIR DA ALEMANHA DEPOIS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Íris Renate von Buettner Pastor, que morreu ontem (3) aos 102 anos, ajudou vários brasileiros a retornar ao seu país de origem.

Ela era casada com o industrial Gotthard Oskar Pastor, oficial do Exército da Alemanha e membro da família que implantara em Brusque a empresa Buettner, com quem se casou em Brusque em 1937 e foi morar na Alemanha, onde ele mantinha uma empresa.

Antes de retornar a Brusque para viver na Villa Quisisana, em janeiro de 1948, o casal ajudou Oswaldo Fritzen e outros estudantes, operários e moradores da Alemanha a retornar ao Brasil.

A história de Oswaldo Frietzen e de sua relação com a família Pastor foi contada no livro de Saulo Adami, “Brusque Vai à Guerra: Novas Visões da História” (S&T Editores, 2007). No livro, Oswaldo Fritzen ou Ossi – seu apelido de infância – contou que foi estudar e trabalhar na Alemanha aos 14 anos (1936), a convite do pastor luterano Wilhelm Bodo Schmidt, que conseguiu para ele uma bolsa de estudos concedida pelo governo de Adolf Hitler. “Ossi visitou Brusque quando era adolescente, viajando com o pastor Wilhelm Bodo Schmidt e Doktor Dittman, e ouviu muito falar da família Buettner, que mantinha sua indústria na cidade”, escreveu Adami. “Ossi pernoitou na casa de Bernardo Stack, no morro, e o pastor pernoitou na casa do cônsul Carlos Renaux”. “Fui para a Alemanha num navio grande, o Monte Sarmiento”, lembrou Ossi. “Era meio carga, meio passageiro. Ele fazia a linha Hamburgo-Buenos Aires”. Três meses depois, foi cursar a Escola Técnica, depois estudou mecânica, até trabalhar na indústria bélica alemã, produzindo torpedos.

O único meio de comunicação com a família eram as cartas, “normalidade que foi interrompida com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial”. Ao final da guerra (1945), ao contrário do que pretendia, Ossi não podia voltar ao Brasil. “Quando veio o primeiro transporte (para o Brasil), (os ingleses) disseram que eu estava metido com o governo alemão, me tiraram a passagem.

Tinha muita gente. O trem estava pronto para sair daquela cidade para ir a Hamburgo, o navio Santarém já estava esperando. Mandaram parar o trem. Ré. O inglês veio com uma lista. Fulano, cicrano, Oswaldo Fritzen, tal, tal… Fora. Vinte e cinco pessoas, na arrancada. Tive que me defender, levou tempo”. Deixou a Alemanha, atravessando a fronteira com a Bélgica, mas foi abordado, preso e obrigado a voltar, sem sua mala de roupas, sem nada.

Foi quando apelou a Íris Renate von Buettner, em Archen. “Eram 11 e meia da noite, quando cheguei lá. Renate morava numa casa meio estragada porque foi bombardeada. ‘Quem está aí?’, ela perguntou. ‘Sou eu: Ossi, respondi. ‘Pensei que estavas na Bélgica… Que é que falta?’. Eu disse: ‘Não tenho mais comida, não tenho dinheiro, tô pelado!’. Aí ela me deu um dinheirinho, me arrumou um canto para dormir, e no outro dia, de manhã cedo, peguei um trem e fui falar com o Major Korman, no acampamento”. Íris Renate von Buettner era casada com o sargento da Wehrmacht, Gothard Pastor, lembrou Oswaldo Fritzen. “A S.S. tinha duas classes: a cinza e a preta. A S.S. preta tinha que ter uma altura certa, bastante estudo, era liderança no governo alemão. Se faltasse um administrador ou algo assim, eles eram aptos a tomar posse. Os de uniforme cinza eram militares de carreira: sargento, cabo… Como num exército. A Wehrmacht era composta por militares da infantaria e da artilharia”. Ossi foi convocado pela missão brasileira em Berlim para trabalhar no cadastramento dos brasileiros e de seus descendentes que precisariam retornar ao Brasil. “Aí veio a missão militar brasileira em Berlim, com o Costa e Silva, major Rubens e general Sá Neto. Eu trabalhei perto de Kewela, cadastrando o pessoal todo que estava na Alemanha. Se você era alemão e tinha um filho nascido aqui, no Brasil, então era considerado membro da família brasileira. Tinha 39 mil pessoas nessa situação. Foi emitido um atestado de bons antecedentes e de boa conduta para que eu pudesse sair da Alemanha”. Seu nome não constava da primeira listagem de passageiros do navio Santarém. “Eu vim na segunda turma”, contou Fritzen. “O navio carregava 10 toneladas de carga e 1.280 famílias brasileiras a bordo, dormiam que nem porco. Beliches com duas, três repartições. As pessoas enjoavam, vomitavam… Foram 28 dias de sacrifício. Do Rio de Janeiro, meu pai mandou dinheiro pelo Banco do Brasil, eu peguei avião até Florianópolis”. “Ao regressar”, prossegue a narrativa do livro, “Ossi chegou a Brusque como funcionário da Buettner, e em 1949 foi contratado pela Renaux para cuidar das máquinas da recém-fundada Fiação Limoeiro”.

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