Impressões gerais sobre o debate do 1º turno na Band- Eleições 2018- Por Gabriel Wilhelms

Cabo Daciolo (Patriota)

Já cientes do hábito do Cabo, que até então era um grande desconhecido para o país, de dar “Glória a Deus” e falar a todo o tempo do “Senhor Jesus Cristo”, uma boa sugestão para se aproveitar melhor os próximos debates, bem como digerir melhor as suas teorias conspiratórias, é reunir os amigos e convidar todos a virar uma dose de vodka cada vez que o Cabo tomar o nome de seu bom Deus em vão. Há o contratempo de que no dia seguinte ninguém se lembrará do que foi dito no debate.

A presença do bombeiro militar e deputado federal (eleito pelo Psol e expulso posteriormente do partido) tem tudo para beneficiar Jair Bolsonaro, do qual falarei a frente, afinal este deixa de ser o candidato com a argumentação mais capenga. De longe, a figura mais pitoresca presente.

Guilherme Boulos (PSOL)

 Ninguém pode acusá-lo de não ser combativo, haja vista que passou a maior parte de seus momentos de fala atacando os oponentes. Aliás, parece que já virou um padrão do Psol criar um apelido pejorativo que qualifique os demais candidatos. Em 2014 Luciana Genro cunhou os “três irmãos siameses” para se referir a Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva. Dessa vez, o candidato psolista qualificou os demais presentes como os “50 tons de Temer”.

 Tentando diversificar a carreira de invasor de propriedade, Boulos quer ser presidente. Faz um diagnóstico que há princípio é correto: há sim uma grande desigualdade no que concerne a privilégios de uns poucos em detrimentos de uns muitos. Erra, como todo socialista, a reconhecer tais privilégios não como consequência da ação do estado – pelo contrário, visando recrudescer essa ação – mas como um vício do sistema capitalista, e em apontar quem são os verdadeiros privilegiados. Sugere o pacote típico da extrema-esquerda como solução para o déficit fiscal: tributar heranças, grandes fortunas e dividendos -esta última proposta representando uma óbvia bitributação, que infelizmente, nenhum dos demais candidatos se ocupou em apontar – a medida em que se expande os gastos públicos. É um pacote da catástrofe, que não difere muito do sugerido pelo PT, e seu tom arrogante e debochado não contribui para suavizar seu extremismo.

Álvaro Dias (Podemos)

A mesma brincadeira sugerida com o Cabo Daciolo poderia ser feita com Álvaro Dias, com todos entornando a dose de vodka cada vez que ele mandasse o povo “abrir o olho”.

Para quem estava interessado em ver um candidato sulista no debate, creio que possa ter sido decepcionante. Álvaro Dias não fez absolutamente nenhuma proposta concreta. Quando o PTN se converteu em Podemos (PODE), já havia apontado para a falta de definição de ideias, e a aposta na “democracia direta”, que entendia que nada mais era do que falar o que o povo queria escutar. Prova disso é sua insistência em dizer que convidaria Sérgio Moro para ser ministro da Justiça. Infelizmente, mais de um ano depois parece que nada mudou. Se Daciolo amenizou a presença de Bolsonaro, Álvaro Dias fez o mesmo com Marina Silva, tornando seu discurso ainda mais inconclusivo que o dela, para não dizer irrelevante.

Henrique Meirelles (MDB)

Meirelles fez questão de agir como uma espécie de deslocado no debate, deixando clara sua estratégia de salientar que não é político de carreira, mas que é, a despeito disso, um bom gestor público. Focou mais na sua atuação como presidente do Banco Central do governo de Lula do que na sua, mais recente, como ministro da Fazenda de Temer, provavelmente numa estratégia de se descolar desse que amarga – injustamente – altos índice de desaprovação.

No entanto, além de sua atuação como presidente do BC e ministro da Fazenda, Meirelles nada teve a oferecer, em termos de propostas, ao eleitor. A impressão que ficou é que pediu uma espécie de cheque em branco em função de sua experiência. Meirelles é um dos responsáveis por colocar fim à maior recessão da história do país, merece consideração, mas em política isso não basta. Se quiser ganhar maior relevância como candidato, terá que ir além da estabilização da economia e buscar ser mais carismático.

Marina Silva (Rede)

Quem acompanha desde 2010 a participação de Marina nos debates, deve julgá-la como um disco arranhado, ouvindo mais do mesmo em 2018. E não, isso não ocorre por consistência nas ideias, as quais fora as questões ambientais, temos dificuldades de saber realmente quais são. Marina, muito antes da Lava Jato e de surgirem vários “renovadores”, fala da nova política, e se coloca como representante de tal. Ocorre que quando se proclama por muito tempo o novo, é inevitável que ele pareça velho em algum momento. O discurso da Marina se tornou velho, e extremamente dependente da sua história de vida.

 Marina poderia até passar por uma palestrante de autoajuda dada a insistência com que aborda as dificuldades de sua vida, como o fato de ter aprendido a ler aos 16 anos. Tudo isso é, obviamente, razão de grande mérito, mas nada tem a ver com propostas ou programa de governo.

Jair Bolsonaro (PSL)

Talvez tenha sido o já citado, efeito causado pelo Cabo Daciolo, mas todos ficaram com a impressão de que Bolsonaro foi muito mais moderado do que se esperava que ele fosse, considerando ser quem ele é. Creio, porém que isso faz parte de sua estratégia de se tornar mais tragável para os eleitores mais moderados, afinal as eleições não costumam ser decididas pelos extremos.

Contudo, é fácil constatar, e não há nenhuma novidade aí, o quanto o candidato é fraco e o quanto apela para soluções pitorescas e militarizadas para problemas grandes, como sugerir escolas militares como solução para a educação brasileira. Talvez Bolsonaro lamente não poder enviar, por procuração, seu “posto Ipiranga” para falar por ele nos debates.

Ciro Gomes (PDT)

 Assim como Bolsonaro, Ciro conseguiu manter a calma, orientado que deve ter sido por seus assessores a fugir do rótulo de temperamental, que contribuiu para lhe custar o centrão. Por incrível que pareça, não vimos Ciro passando o lenço na testa em nenhum momento e nem aquele tom de pele ruborizado que o faz parecer um camarão, quando tem desafiadas suas teorias econômicas.

Ciro foi cordial, e hábil em sua argumentação, como costuma ser. Mas como sempre, por trás de toda a sedução de sua “intelectualidade”, há afirmações imprecisas e falsas. Ciro continua insistindo na mentira que é dizer que 51,6% do dinheiro arrecadado vai para pagar juros da dívida. Há de fato esse impacto percentual no orçamento, mas que é pago em sua maior parte com a rolagem da dívida, e não com o que é arrecadado. Não arrecadamos o suficiente para pagar juros da dívida desde 2014, razão de termos um déficit.  

Mas o grande destaque de Ciro no debate é a promessa de tirar 63 milhões de pessoas do SPC. Ciro não diz que podem duvidar, mas que ele “sabe” como fazer, e apesar da certeza demonstrada, não revela o segredo da mágica, mas apenas que ao longo da campanha irá explicar.

Geraldo Alckmin (PSDB)

Se me pedissem para apontar um “vencedor” para o debate, apontaria Alckmin, não por preferência política ou por achar que foi inabalável, mas por ter atendido melhor ao conjunto. Alckmin não deixou nenhuma pergunta sem resposta ou com resposta vaga, e esteve a todo tempo munido de exemplos em sua gestão como governador de SP.

Alckmin pode não ser um argumentador tão ardiloso quando Ciro Gomes, mas fala bem, e tem a vantagem de não apelar para propostas mágicas e populistas.

Sua desvantagem é que ele ainda é o Alckmin, morno, que não empolga o eleitorado. Neste debate contou com a sorte de ter sido o mais acionado pelos outros candidatos. O ponto mais enfático de sua fala foi quando deixou bem claro sua posição favorável a reforma trabalhista recentemente aprovada, e em especial, ao fim do imposto sindical. Julgo importante essa manifestação do candidato, dado o temor de que, tendo o SD de Paulinho da Força em sua coligação, pudesse cogitar rever esse ponto da reforma.

Gabriel Wilhelms

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