Há uma conspiração para destruir a família e legalizar a pedofilia?- Por Gabriel Wilhelms

A polêmica em torno da performance ocorrida no MAM está propiciando nas redes uma discussão pelo visto ainda mais longa do que a do Queermuseu em Porto Alegre, sobre a qual também escrevi na época. A coisa toda foi apimentada, com a Globo (sempre ela) se tornando o novo objeto de ira, por causa de uma matéria do Fantástico sobre os acontecidos e pelo debate do assunto no programa Encontro com Fátima Bernardes. Na ocasião, uma senhora da plateia chamada Dona Regina criticou a presença da criança e de repente se tornou uma heroína para aqueles que dizem que ela “fala em nome do povo”, mas vamos por partes.

 Sim, na performance realizada o artista estava nu, e havia a proposta de interação com a plateia, ou seja, a ideia era que o público (aqueles que quisessem) interagissem com a “obra”. Não vou entrar aqui novamente no mérito de discutir se é arte ou não é, vou apenas ser categórico: é arte e pronto. Por que? Porque o artista disse que era, e isso encerra a questão, se é bom ou ruim, aí é outra história. A obra estava devidamente sinalizada quanto a seu conteúdo, ou seja, quem decidia assistir sabia que iria se deparar com nudez. A exposição não era destinada para crianças, se o fosse não haveria ressalva quanto ao conteúdo, então falar em “pedofilia” é de um extremismo sem tamanho. No entanto, essa tem sido a retórica principal.

Afastada a culpabilização do museu e do artista, sobra as críticas aos pais. Bom, você sempre pode dizer que não levaria seu filho (a) em algo assim, pode achar que o conteúdo não era adequado, mas os pais das crianças que lá estiveram, acharam adequado. Além do mais, não incorreram em nenhum crime. Alguém poderia nesse ponto citar o Art. 241 do ECA, como se tem feito ostensivamente, mas não há nada lá que diga que os pais incorreram em crime. As crianças que lá estiveram não foram expostas a conteúdo de cunho sexual ou obsceno, não houve qualquer interação nesse sentido, e a mera nudez não pode ser qualificada como pornografia, havendo para isso a necessidade de caráter obsceno/sexual.

 O fato de essa polêmica ter surgido tão logo tinha esfriado a polêmica do Queermuseu, deu munição para aqueles que falam em um movimento pró-pedofilia, ou em uma conspiração para acabar com a família tradicional. É aí que a Globo e os “artistas” entram na história, afinal eles não seriam apenas parte, mas idealizadores da conspiração. Só que o argumento é velho, ouço essa conversa de que “querem acabar com a família tradicional” desde sempre, tendo normalmente como foco as novelas da emissora, em especial quando estas começaram a apresentar personagens gays com mais frequência.

 A coisa toda é fundamentada em se dizer como de fato pensa a maioria da população brasileira- aí entra a Dona Regina- e em quanto determinados conteúdos violam seus valores. No entanto, aplicar o critério democrático, ou seja, a vontade da maioria, dessa forma não faz sentido. Numa democracia representativa, que é a única possível, somos chamados ao pleito nas eleições, e eventualmente podemos ser em referendos e plebiscitos, e aí a vontade da maioria se faz presente. O que isso tem a ver com o que passa nas novelas ou com o que está sendo exposto nos museus? Absolutamente nada. Primeiro que essas são esferas que não guardam relação com o governo/política, segundo que a intenção não é os consumidores de um produto/serviço solicitarem adequações na qualidade deste, como você faz quando liga para o SAC de uma empresa da qual você é cliente, mais alterar completamente sua natureza, e por fim, impedir que outros possam vir a ter contato com a coisa, e isso por vezes partindo de pessoas que não consumidoras de fato.  

 Como pode alguém, que se diz liberal, apelar para a Dona Regina e falar em adequar o que passa num canal privado, ou que é exposto em um museu, e por assim vai, a vontade da maioria? Porque admitida essa hipótese, que é antiliberal, uma vez que se esmaga a ação individual (a liberdade artística, por exemplo) em nome de um coletivo, cria-se um paradoxo para muitos grupos de direita no Brasil. Lula foi eleito por duas vezes, e Dilma também por duas vezes, pela maioria do povo. Será que esses grupos consideram estas a mais pura expressão de racionalidade dos cidadãos e não estão dispostos a questionar essa racionalidade? Sei que o MBL, o patrono dos recentes boicotes, passou a organizar manifestações pelo impeachment (nada contra o impeachment) tão logo saiu o resultado do pleito em 2014.

 Não pretendo chamar os que agora criticam a performance do MAM ou a Globo de homofóbicos, deixo isso para os progressistas de esquerda, os quais a propósito não dispõe de moral para criticar a revolta da direita, pois são especialistas em censura cultural, mas o argumento de fundo, o apelo à maioria, é muito parecido com um argumento que já escutei muito: “Não podemos legalizar o casamento gay porque a maioria do povo é contra”. E que importância tem se a maioria é contra? A maioria será afetada? A opinião e vontade da maioria são irrelevantes aqui, e isso de maneira nenhuma contradiz a democracia, a qual não existe sem o respeito e a proteção às liberdades individuais. Você sempre pode deixar de assistir televisão, trocar de canal, não ir ao museu, não assistir determinado filme, não escutar certa música, mas quando você quer também impedir os demais de fazerem isso, você é simplesmente autoritário.

 

Gabriel Wilhelms

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