Governo elege prioridades: comemorar golpe de estado parece mais importante que reformar a previdência- Por Gabriel Wilhelms

Já disse aqui: apresentar o projeto de reforma da previdência foi a parte mais
fácil. No entanto, o presidente tem agido como se seu trabalho tivesse
concluído, o que a recente troca de farpas com Rodrigo Maia exemplificou
muito bem. Em meio a briga, Maia chegou a dizer que Bolsonaro “está
brincando de presidir o país”. Bom, parece estar mesmo.
Vejamos, Bolsonaro passou quase 30 anos na Câmara dos Deputados.
Apesar do barulho causado por suas indigestas polêmicas, era um deputado de
baixo-clero, mas mesmo de baixo-clero, suas quase três décadas de
experiência como congressista deveriam ter servido para, mais do que
simplesmente encher o bucho e o de seus filhos, entender como funciona o
Congresso.
Mas não, ele conseguiu a proeza de se vender para milhões de brasileiros
como um “outsider”, e, razão de descontentamento de muitos congressistas,
colocou em muitos deles o selo de “velha política”.
Bolsonaro deputado nunca apoiou a reforma da previdência, atacou
publicamente a proposta por Temer, e quando tocava no assunto, o fazia para
reiterar as “particularidades” da carreira militar. Bolsonaro presidente talvez
continue conservando secretas antipatias contra a reforma da previdência, mas
não estava em posição de se negar a propor uma reforma, então, o fazendo,
parece querer lavar as mãos, de modo que se o texto não for aprovado ou, se
for desfigurado a ponto de ser irrelevante, poderá culpar o congresso e os
membros da “velha política”. Aí a razão de eu dizer que propor é a parte mais
fácil, mas é na articulação política que realmente se pode avaliar a
competência política de um presidente, e até o momento ele tem falhado
severamente.
Seu séquito mais fiel de imediato sai em sua defesa alegando que ele se
recusa a “pagar propinas”, como se articulação política fosse pragar propinas
ou fazer qualquer coisa obscura. Sim, a articulação em um ambiente
multipartidário pode incluir distribuir determinados cargos em ministérios e
secretarias entre partidos ao se tentar compor uma base aliada, e isso é
verdade no mundo todo, não apenas no Brasil. Porém, não há sinal algum de
que isso seja o problema. O problema é diálogo, comunicação e postura.
Se realmente Bolsonaro quer aprovar a reforma da previdência, e muitas
vezes parece não querer, que é uma matéria extremamente impopular, ele não
pode pretender deixar apenas para os congressistas o seu ônus político e o
trabalho de convencimento do eleitorado de que a reforma é necessária.
O engajamento de Bolsonaro com a reforma até agora foi pífio, tímido. Talvez
por que o presidente tenha outras coisas na cabeça. Por exemplo, parece
prioritário para o governo a sua cruzada ideológica que se pinta como “anti-

ideológica”, que chega agora ao ponto mais alto que já chegou em seus três
meses de governo – o que não significa que não possa vir coisa pior – por meio
da celebração do golpe de estado que mergulhou o país em uma ditadura de
21 anos de duração. E comemorar é a palavra correta, mesmo que o
presidente use subterfúgios como “rememorar”.
Aliás, se fosse mesmo para rememorar, eu acho que seria uma boa ideia, mas
teria que ser algo do tipo: “E então nós, das forças armadas, devemos reavaliar
nosso papel histórico de participação na derrubada de um presidente
democraticamente eleito e na posterior instalação de um regime de exceção
que perdurou por duas décadas e cassou o direito ao voto do cidadão brasileiro
por 25 anos. Sendo assim, é necessário que peçamos perdão as famílias das
vítimas, que incluem mortos, desaparecidos, torturados, e todos os demais
cidadãos que sofrem os reveses de uma ditadura. Ah, a propósito, sim, foi uma
ditadura”. Alguém consegue imaginar isso saindo da boca ou da caneta do
ministro da Defesa ou do Comandante do Exército? Pois é, nem eu.
Essa leitura deturpada de 1964 coroa a tentativa de revisionismo ideológico
encabeçada por este governo. A afirmação de que não houve golpe em 1964 e
que do mesmo modo não houve ditadura já foi dita várias vezes por Bolsonaro,
e ecoada recentemente pelo chanceler Ernesto Araújo, o pior e possivelmente
mais despreparado dentre os ministros, que em linha com o nível de sandice
também constrangeu o país recentemente ao dizer que o “nazismo era de
esquerda”.
A tentativa de revisionismo, claro, vai ser frustrada no fim das contas, e nem o
aparelhamento ideológico do MEC, nem desfile com honras militares em
defesa dos “heróis de 1964” (é assim que Bolsonaro qualifica os golpistas em
1964) poderá mudar o fato de que houve golpe em 1964 e houve ditadura entre
1964 e 1985, e as interpretações divergentes cairão num obscurantismo de
irrelevância e chacota, assim como seus patrocinadores.
Seguindo nesse rumo, isto será inevitável para o governo, e a única chance de
não terminar como uma piada completa, seria realizar reformas importantes
que tivessem efeito econômico positivo, sendo a da previdência a mais
importante. Sem mudanças drásticas em termos de articulação política e
postura do presidente, sem abandonar as pautas ideológicas, sem parar de
demonizar a imprensa e enquanto continuar sob a influência do astrólogo de
Virgínia e dos filhos do presidente, os próximos quatro anos de governo podem
acabar sendo uma mera extensão desses desastrosos três meses.
Gabriel Wilhelms

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