Fizemos a marcha da insensatez – O triste caso da nossa democracia de WhatsApp – Por Gabriel Wilhelms

Não há como suavizar as palavras, o resultado do pleito do último domingo, dia 07, embora muito bem anunciado pelas pesquisas, foi uma tragédia. Conseguimos a proeza de colocar no segundo turno os dois líderes em rejeição. O que assistiremos agora será um enfrentamento de ódios, vencendo, aquele que conseguir despertar mais ódio contra o adversário. Propostas não importaram no primeiro turno, não creio que importarão no segundo.

 Entender esse processo, totalmente atípico, não é tarefa fácil, e não tenho a pretensão de exaurir as possibilidades aqui. Nesta eleição, o processo eleitoral convencional foi desafiado, e também foi o bom senso.

O que decidirá essa eleição certamente será a rejeição de um em relação a outro, e os votos que decidirão o pleito, certamente não serão votos de total concordância para nenhum dos lados, mas muito mais de discordância com o outro. Não se escolherá o melhor candidato, mas sim o menos pior. Não serão escolhidas as melhores propostas, elas perderam relevância.

Ao longo do processo eleitoral, eu realizei a análise do plano de governo dos 6 candidatos mais bem posicionados nas pesquisas. Posso dizer com tranquilidade que Bolsonaro e Haddad são responsáveis pelos dois piores planos de governo, dentre os que analisei. Claro que ninguém precisa confiar em minha opinião, bastava ler os planos direto da fonte. Desconheço pesquisa que tenha feito este levantamento, mas duvido (e estou sendo generoso), que mais de 5% dos eleitores de cada um dos lados tenha lido, ou saiba o que consta no plano do governo do seu candidato.

No caso do Haddad, os eleitores habituais do PT já sabem o que esperar, com o adendo de que o PT de 2018, nunca se pareceu tanto com o que o PT de suas origens. É um PT mais radical, mas nada que fosse afligir seus eleitores típicos. Para estes, a leitura do plano não teria tanto importância, de qualquer forma.

Com Bolsonaro a coisa é diferente e pior, pois ele é uma novidade, obscura e heterodoxa. Ninguém sabe realmente o que ele fará se eleito, e o plano em nada colabora para elucidar. Seu trunfo foi ter se convertido em um arauto da moralidade, o que, deve-se dizer, não se deve a nenhum feito em especial. Não responder processo de corrupção é muito antes uma obrigação, mas para ser o que pessoas desesperadas querem acreditar que ele é, deveria fazer mais, deveria estar acima da média. Deveria, muito antes, não ter recebido auxílio moradia tendo imóvel em Brasília, ou não ter permitido que a “Val”, que não cumpria devidamente seu horário de trabalho, lhe prestasse serviços particulares enquanto paga com dinheiro público.

 Haviam 13 candidatos a presidente, alguns a serem desconsiderados pela bizarrice e irrelevância, mas certamente, havia gente muito melhor, com propostas e programas de governo muito melhores do que os selecionados pelo povo. Isso ficou evidente nos debates também, nos quais, nos poucos que foi, Bolsonaro teve um desempenho pífio. Nada disso importou.

Bolsonaro e Haddad não disputarão o segundo turno por terem as melhores propostas. Haddad disputará por ser do PT, partido que mesmo enfraquecido ainda tem relevância, tendo eleito a maior bancada da câmara, e também pelo fato de a transferência de votos do Lula, ter sido bem-sucedida. Bolsonaro disputará, pois, foi o maior virtuoso em vencer a batalha de (des)informação que foi a grande divisora de águas nesta disputa.

Quando Alckmin fechou com o centrão e passou a ter mais de 40% do tempo de propaganda, isso parecia ser um fator indutor de crescimento do tucano. Ele acabou com 4,8% dos votos válidos. Bolsonaro teve apenas 8 segundos do tempo de propaganda. Levou 46% dos votos válidos.

Esta é a primeira eleição em que podemos notar um efeito decisivo da internet e a diminuição da relevância eleitoral das rádios e TV. Isso, no entanto, tem uma faceta perigosa. Segundo pesquisa do Data Folha, divulgada no dia 02, 6 em cada 10 eleitores do Bolsonaro se informam pelo WhatsApp.

Sabemos muito bem o que esse se “informar” significa. O WhatsApp é certamente o principal instrumento de propagação de fake news, ou ainda, das chamadas “junknews”, que são em suma notícias distorcidas e tendenciosas. Quem participa de grupos de discussão política na rede social, ou mesmo grupos triviais como os de família, é bombardeado com uma série de vídeos, e pseudonotícias do gênero. Torna-se complicado verificar tudo, mas pesa mais a preguiça de verificar, uma única que seja. Acredita-se no que se quer acreditar, e de imediato se passa adiante para todos os contatos, os quais em grande parte vão fazer o mesmo, criando uma corrente infernal de mentiras.

Já vi campanhas baixas em outras eleições, com ataques pessoais e apelos ao terrorismo eleitoral, mas nunca vi tal nível de baixeza como o perpetrado pelas informações falsas, muitas vezes grosseiras, que não visam, senão outra coisa, condicionar a percepção das pessoas da realidade, dos candidatos, e consequentemente determinar seus votos.

Na batalha de informação, travada neste pleito, ideias, projetos e debates foram esquecidos, e, não apenas o WhatsApp, mas as redes sociais como um todo, foram definitivas para a marcha da insensatez para o qual nos encaminhamos.

A democracia é, a despeito do que vozes que agora se manifestam no voto, mas que até há pouco tempo pediam intervenção militar, dizem, uma maravilha- parafraseando Ciro Gomes- mas ela tem seu custo. Eis o custo de nossa democracia de WhatsApp, relegada a escolher quem causará menos dano ao país.

Gabriel Wilhelms

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