Escola sem Partido ou “mudança” de partido? – Por Gabriel Wilhelms

Nosso atual ministro da educação, Ricardo Vélez Rodriguez, o colombiano que acha que brasileiros agem como “canibais” na hora de viajar, é um defensor do retorno da educação moral e cívica ao currículo escolar, e que “Esse ensino de valores cívicos a  vir desde a infância, passando pela juventude e indo até a universidade”. 

 A defesa do retorno da matéria é típica entre aqueles presentes no contorno ideológico do atual presidente. A justificativa, sempre está em promover uma mudança de comportamento entre os jovens, e Vélez não deixa dúvidas quanto a isso ao insinuar nosso “canibalismo” e dizer que o brasileiro “Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”.

 Concluisse aqui que a tal educação moral e cívica visaria atacar nossa suposta “incivilidade”, e que o momento mais propício para promover esse adestramento seria nas dependências escolares. Estou entre os que pensa que ensinar aos pequeninos que roubar o assento salva-vidas do avião é feio compete aos pais e não aos professores, e que de todo modo, não seria desejável a transferência de uma incumbência familiar a terceiros. Mas ao propor a coisa como solução, inclusive, para a deliquência juvenil, se reconhece um certo poder nas mãos de instituições de educação e de professores com sua “audiência cativa”, e reconhecendo o poder, se tenta usá-lo para um fim específico, que é o direcionamento moral, a educação em si, aquela que compete aos pais e vai além do ensino das disciplinas escolares. 

 A ironia é que Vélez é um apoiador do Escola sem Partido, que promete defender, justamente, os estudantes daqueles que usam sua audiência cativa para moldar a mente de seus pupilos. A diferença aqui, dirão, é que se trata de promover a “cidadania”. Ah, colocando uma palavra bonita como essa nem parece que estamos falando de um tipo de lavagem cerebral. 

 É comum gente do atual governo e apoiadores apontar para a indisciplina de estudantes, normalmente citando casos de agressões físicas em salas de aula, como um sinal de que os professores perderam a autoridade. A questão é que para quem pensa isso e apoia incondicionalmente o Escola sem Partido, há um paradoxo que me parece insanável. 

 Se entendermos a perda de autoridade dos professores como algo generalizado – e não vamos aqui questionar se isso corresponde a verdade ou não, para fins de raciocínio vamos dizer que sim – têm-se que a doutrinação não poderia ser bem sucedida na mesma proporção. Ora, comunista, fascista ou qualquer outro ista, professor(a) é professor(a) e quer ser ouvido(a) e conseguir dar sua aula em paz. Tomando como um fato generalizado que os professores estão falhando em controlar suas turmas, estes mesmos professores, caso pretensos doutrinadores, deveriam estar falhando ainda mais dramaticamente em doutrinar seus alunos. 

 Há quem, mesmo apontando essa suposta perda de autoridade generalizada, e fazendo isso verbalizando contra os “moleques de hoje em dia”, pretende adicionar um tempero a mais nessa relação, já tempestuosa, e dar poder de fogo para os “moleques”. Imaginem o caos se estudantes que não respeitam seus professores passassem a filmar suas aulas, não porque querem revisar o conteúdo posteriormente, mas pura e simplesmente para alimentar um canal de denúncias que poderia passar a ser usado por estes alunos, sabendo do poder coercitivo em suas mãos, como forma de perseguir seus professores. 

 A ideia, que primeiro gerou polêmica na mão da deputada estadual Ana Carolina Campagnolo (PSL-SC), foi revivida recentemente a nível federal pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) em seu PL 246/2019, que institui o “Escola sem Partido”. Lá, em seu artigo 7º a coisa é defendida assim: “É assegurado aos estudantes o direito de gravar as aulas, a fim de permitir a melhor absorção do conteúdo ministrado e de viabilizar o pleno exercício do direito dos pais ou responsáveis de ter ciência do processo pedagógico e avaliar a qualidade dos serviços prestados pela escola.”

 Ora, é impossível ler isso sem notar a cara-de-pau. Dizer que o objetivo de dar carta branca para alunos ficarem erguendo seus celulares no meio da aula (se forem câmeras pior ainda) é permitir a melhor absorção do conteúdo, no meio do projeto que institui o Escola sem Partido, é nos chamar de idiotas, sobretudo quando associamos a coisa com a defesa da criação de um “canal de denúncias”, o que aparece no artigo 11 do projeto.

 Ambas as coisas são evidentemente a institucionalização das ideias que polemizaram e tornaram a então deputada eleita Ana Carolina Campagnolo conhecida a nível nacional. 

 Já disse várias vezes aqui, doutrinação existe de fato, no entanto, não é na proporção e eficiência que os bolsonarianos sugerem. Sim, casos já foram documentados por alunos que o fizeram ao filmar escondidos um professor(a), mas do mesmo modo que esse nível de doutrinação se constitui na exceção e não na regra, a institucionalização de algo do tipo, filmar as aulas sem o consentimento dos professores, lhe retirando o poder de impedir o uso de equipamentos tecnológicos durante sua aula, não tem como contribuir para “aumentar a autoridade dos professores”. 

 No mais, um mal, por menor que seja, não justifica qualquer tipo de antídoto que se proponha, e há que se ver quem está propondo. Pelo que parece, essa turma não tem pudor em usar aquele mesmo poder oriundo da “audiência cativa” para sanar nossas supostas falhas antropológicas. Sugerem aumentar o poder da família em detrimento do da escola, mas pensam que a escola tem a incumbência de ensinar o certo e o errado.

 Tudo isso leva a crer que as críticas de que querem substituir uma doutrinação por outra faz todo sentido. Sobre o assunto, vejamos o que publicou em sua página do facebook em novembro de 2018 o movimento Escola sem Partido: “Quem acha que ressuscitar Educação Moral e Cívica e OSPB vai neutralizar o esquerdismo das escolas é porque acredita que as professorinhas da década de 70 vão ressuscitar junto para lecionar essas matérias. Os encarregados dessas disciplinas, caso elas sejam recriadas, serão os professores do PSOL…” Entendi, se fosse a velha educação moral e cívica da ditadura militar, instrumento usado pelo regime para moldar os estudantes, então tudo bem, mas hoje, os “professores do PSOL” colocariam tudo a perder…

Gabriel Wilhelms 

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