É a copa pão e circo? – Por Gabriel Wilhelms

Não gosto de futebol. Não assisto jogos da copa, salvo em convenções sociais que envolvem comes e bebes. Isso não me torna mais cidadão ou mais consciente do que qualquer outro brasileiro que vibre vestindo a camisa da seleção.

A copa ocorre a cada quatro anos, e a cada quatro anos, milhões de cidadãos críticos saem do armário e denunciam aquilo que chamam de uma política de pão circo, esse evento esportivo mundial, feito para alienar os pobres brasileiros, nos faz esquecer de nossas desgraças. Para eles, o futebol é o nosso ópio.

 A cada quatro anos esses nobres cidadãos se lembram que a saúde pública não é adequada, que as estradas têm buracos, que a violência corre solta e que existe corrupção. Na certa, se deixássemos a paixão nacional por futebol de lado, tudo isso se resolveria. Na certa também, se o governo pagasse a cada professor o salário que o Neymar recebe nossa educação deslancharia.

Criticar aqueles que torcem os faz sentir superiores, afinal, não estão neste estado de alienação, não ignoram aquilo que os tolos com bandeiras e apitos ignoram. Quão surpresos eles ficariam se lhes dissessem que é possível fazer as duas coisas: torcer e ainda se importar com o país?

Que é o futebol senão entretenimento? Ora, não vemos esses discursos bonitos quando filas se formam em cinemas país afora na estreia d’Os Vingadores ou de algum outro blockbuster, ou quando se formam para adentrar um Rock in Rio da vida. Pode ser diferente em proporção, mas entretenimento é entretenimento, todos precisam dele, afinal, não vai ser o tédio que vai resolver os problemas do país.

Desnecessário escrever sobre a relação do Brasil com o futebol, e consequentemente com a copa. Aliás, trata-se de um esporte apenas, o vôlei, o basquete e os demais não causam o mesmo furor. Lá, no entanto, estão os americanos, com esportes que salvo exceções, só se praticam por lá, mas que são motivo de euforia nacional. Agora, a democracia americana perde algo com isso? Absolutamente não.

 Você não precisa assistir os jogos da copa, não precisa torcer, aliás, pode torcer até pela Argentina se quiser, isso não é uma traição nacional. Eleger um inimigo abstrato, seja o futebol, a televisão ou o carnaval, como responsável por nosso atraso, além de ser uma grande besteira nunca resolveu problema algum, e olha que isto é um fetiche de longa data por aqui. Ser chato não é virtude política.

Gabriel Wilhelms

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