Documentário mostra os reais interesses por trás da construção da Vila Olímpica no Rio

O prefeito Eduardo Paes, do PMDB, teve recentemente os bens bloqueados pela Justiça do Rio em ação ajuizada pelo Ministério Público do Estado. Ele é acusado de improbidade administrativa na construção do Campo de Golfe Olímpico da Barra da Tijuca, na zona Oeste. Segundo o MP, o peemedebista dispensou uma empresa de empreendimentos imobiliários do pagamento de taxa ambiental no valor de R$ 1,86 milhão em 2013. A empresa, que fez o campo, também teve os bens bloqueados na mesma decisão.

Não por acaso, a Barra da Tijuca abriga a Vila Autódromo, local onde foi construído o Parque Olímpico, principal instalação dos Jogos Rio 2016. Seu cenário, até o final de 2015, mais parecia um canteiro de obras, embora nada estivesse sendo construído. A região abrigava 583 famílias até 2014 e às vésperas do megaevento apenas 20 continuavam no local, resultado da remoção à força empreendida pela prefeitura sob a justificativa de reurbanização e adequação da área aos projetos olímpicos.

Ali, contra a vontade dos moradores, o governo municipal expulsou 2450 pessoas que não puderam decidir sobre seus destinos. Foi o maior número absoluto de remoções da cidade do Rio de Janeiro. As estatísticas da administração de Eduardo Paes ultrapassam, inclusive, governos anteriores considerados principais adeptos desta política.

Os interesses econômicos e políticos conquistados pela expulsão dos moradores, contudo, não é exclusividade da Vila Autódromo. A história dessa comunidade simboliza um legado de remoções e desapropriações deixado pela organização das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Apenas entre os anos de 2009 e 2013, 20.299 famílias (cerca de 67.000 pessoas) foram removidas – e indenizadas ou reassentadas – de suas casas pela prefeitura por conta das recentes intervenções urbanas ou pelo argumento de que moram em zonas de risco, segundo os dados da Secretaria Municipal de Habitação (SMH).

Quem duvidar das estatísticas com a clássica expressão “Isso é coisa de comunista” é só assistir “À espera da medalha”, videodocumentário de Lucas Amarildo de Souza, ex-aluno do curso de Jornalismo da UFSC que mostra, quadro a quadro, ou frame a frame, a difícil realidade da Vila Autódromo.

Lucas quer que o espectador conheça o enredo com as condições que levaram à instalação dos moradores na região da Barra da Tijuca até o processo de retirada promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, considerado o maior de toda a história da cidade.

Para isso, o documentário aborda questões pontuais. O primeiro deles é o contexto histórico, que resgata o surgimento da comunidade na década de 60, época em que a zona Oeste do Rio era praticamente deserta; depois o histórico de lutas, abordando as ações promovidas pela população na tentativa de impedir a saída das 583 famílias da vila.

Passa pelas remoções, processo iniciado já em 2014 até o início dos jogos e chega até as Pós-Olimpíadas – que questiona as ações governamentais para a realocação das famílias, a situação dos moradores durante os jogos e o futuro da Vila Autódromo após o megaevento.

O videodocumentário de Lucas Amarildo é cirúrgico. Mostra que, na tentativa de se posicionar contrário ao processo de remoção, os moradores da Vila Autódromo fizeram uma manifestação em frente à prefeitura em fevereiro de 2010. Na ocasião, o prefeito reafirmou os planos do governo justificando que essa seria uma exigência do Comitê Olímpico Internacional (COI). No mês seguinte, uma reunião entre prefeitura, secretaria de habitação, defensoria pública e moradores levantou a possibilidade de diálogo, embora a retirada das famílias continuasse sendo o principal plano da prefeitura.

Como parte da promessa, o prefeito Eduardo Paes enviou uma carta a alguns moradores da comunidade para uma conversa a portas fechadas, em outubro de 2013. A reunião foi marcada no Riocentro, Centro de Convenções próximo à Vila Autódromo, na qual o prefeito prometeu a possibilidade de os moradores removidos receberem apartamentos no complexo habitacional Parque Carioca, construído especialmente para abrigar quem fosse deslocado de suas casas.

Truculência

O conjunto habitacional foi construído a um quilômetro de distância da Vila Autódromo e recebeu cerca de 250 famílias, que aceitaram inicialmente a proposta da prefeitura. À medida que outras famílias foram rejeitando algum acordo para deixarem suas casas, a pressão sobre estes moradores foi crescendo.

Relatos e registros em vídeo mostram que muitos funcionários da prefeitura circulavam diariamente na comunidade, batendo à porta das casas e tentando convencer os proprietários a negociarem, sob o raciocínio de que nenhuma família resistira e que a prefeitura necessitava daquela área para a construção do Parque Olímpico.

Lucas justifica a escolha do tema em parte pela vulnerabilidade da população de baixa renda que vive em regiões de crescente valorização imobiliária. “O elevado fluxo migratório para o Rio de Janeiro devido à sua importância política e cultural acabou transformando o cenário urbano da cidade. As favelas, já existentes desde o princípio da República, começaram a crescer e se multiplicar em consequência da ausência de políticas públicas que fossem além da repressão”.

Para ele, junto a essa realidade desfavorável, a Vila Autódromo enfrenta a invisibilidade dos meios de comunicação. “Não fosse o empenho de grupos alternativos e jornalistas engajados com o tema, muito pouco seria divulgado sobre a luta dos moradores. A pouca presença nos grandes meios de comunicação acaba distanciando a população carioca de um problema social que acontece na própria cidade!”, diz.

Mas o principal argumento de Lucas para a realização do videodocumentário diz respeito às ações da prefeitura para a retirada das famílias. “Com muita truculência e violação dos direitos humanos, a Vila Autódromo ficou conhecida internacionalmente não apenas por ser vizinha do Parque Olímpico, mas também por ter sofrido um processo violento que deixou marcas físicas e psicológicas”.

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