Dick Danello: “Os amigos cantores brasileiros sempre me trataram bem”

Dick Danello chegou no Brasil ainda criança, para viver com seu pai alfaiate. Ingressou no mundo artístico através da música, que até hoje o motiva a se apresentar, gravar e defender o idioma de sua pátria natal. Um dos expoentes da Jovem Guarda, na década de 1960, Dick Danello está se preparando para lançar um livro contando sua trajetória. Ele foi entrevistado com exclusividade para esta edição do EM FOCO.

Quais os motivos que o levaram a imigrar ao Brasil, em 1955? Você veio sozinho ou com sua família?

Eu cheguei ao Brasil e em especial a São Paulo, quando eu tinha 12 anos de idade, porque já se encontrava aqui meu pai Fortunato, que era alfaiate. Vim juntamente com meu tio Ciriaco Verta, pois não poderia viajar sem a tutela de alguém já que eu era menor de idade. Foi muito difícil para mim, mas eu sempre gostei de aventuras, e tinha que ser assim. E assim foi.

Ao iniciar sua carreira como cantor profissional no Brasil, em 1964, você tinha experiências anteriores na música brasileira?

Eu me recordo quando assistia ao Festival de Sanremo, que é o maior acontecimento da música italiana, e talvez do mundo, que sempre quis ser cantor. Aquele festival me fascinava. Comecei na verdade numa brincadeira no Convento dei Cappuccini, a Belvedere Marittimo aonde nasci, e depois as coisas foram acontecendo aos poucos. Chegando aqui, fui procurando meios de rádio, gravadoras, programas de TV, e fui me infiltrando, até conseguir gravar meu primeiro compacto, numa gravadora de Santos chamada Som Brasil, e aí comecei na verdade artisticamente e profissionalmente, quando me apresentei na Rádio Clube de Santos num show com nada menos nada mais que Cauby Peixoto, Angela Maria e Dalva de Oliveira.

Como você foi recebido pelos demais cantores profissionais do Brasil, quando você começou a ganhar espaços na mídia?

Os amigos cantores brasileiros sempre me trataram bem. Aliás, como eu era um cantor italiano nascido lá, eles tinham muita curiosidade na época de trocar ideias sobre tudo o que acontecia na música italiana. Não vamos esquecer de que eu ouvia o Festival de Sanremo pelas ondas curtas, e depois gravava as músicas antes que os originais fossem lançados aqui. Isso fazia com que meu disco fizesse sucesso bem antes que o original fosse lançado. Eu fui pioneiro nisso.

Quando você entrou para o movimento Jovem Guarda, ou através de quem?

Eu tinha que entrar no movimento Jovem Guarda, de qualquer maneira porque a minha música “Quando vedrai la mia ragazza” estava na parada de sucesso e eu tinha que obrigatoriamente me apresentar nesse programa. Foi na Jovem Guarda que o Roberto Carlos me deu o apelido de Italianíssimo – porque eu vestia ternos muito bem feitos que o meu pai

confeccionava. Mas quem me chamava o tempo todo era o empresário argentino Márcos Lázaro.

Você ainda se relaciona ou trabalha com expoentes da Jovem Guarda, como Roberto e Erasmo Carlos?

Claro que não é a mesma coisa como era na época. Cada um tomou seu rumo, mas sempre que possível nos encontramos e de repente nos deparamos em algum programa ou em shows. Como aconteceu na virada cultural de 2015, quando reencontrei Jerry Adriani, Lilian, Fábio Stella, Demetrius, Wanderleia e outros. É sempre bom o reencontro.

Quais os momentos que, na sua opinião, foram os melhores de sua carreira, até aqui?

Acho que todos os momentos são especiais. É como se fosse sempre a primeira vez. E em cada momento a gente sente aquele friozinho, antes de uma apresentação ou acontecimento artístico. A apresentação do Festival de Sanremo. Ter músicas nas novelas da Globo. Ser reconhecido na Itália pelo meu trabalho aqui no Brasil. Ter recebido vários prêmios… Enfim, muita coisa.

Você também compôs para cinema e TV?

Sim, recebi convites para compor trilhas sonoras, como o tema “Passin Love Theme” do filme “Uma verdadeira história de amor”. Essa música foi gravada pelo inesquecível Altemar Dutra. Também fiz a trilha sonora do primeiro filme da Vera Fischer, “As Fêmeas”, e muitos outros. Daí para a televisão, como fiz a pesquisa da novela Terra Nostra, e outras.

Na década de 1970, você experimentou a vida de empresário da música. O que é mais gratificante para você: trabalhar como músico ou trabalhar como empresário de outros profissionais?

Em 1974 montei a Central Park Records, e gravei com muita gente em inglês, como, por exemplo, Dave MacLean (“We said goodbye” vendeu na época 2 milhões de discos). Lancei também outros artistas, como Edward Cliff que vendeu na Itália 200 mil discos com a música “Nigts of september”. Eu sempre fui um desbravador, e o continuo sendo.

Foi você quem escolheu trabalhar no rádio ou foi o rádio quem o “escolheu” para trabalhar com ele?

O rádio veio a mim e eu fui para o rádio. É exatamente isso. Acho que quando idealizei o programa “Parlando d’Amore” estava faltando um programa italiano apresentado de uma maneira inteligente. Dando ênfase sempre à música. Aliás, a música italiana tem que ter um destaque muito grande, principalmente no Brasil aonde é muito bem recebida e apreciada.

Como foi para você receber em 2014 o prêmio da Ordem dos Músicos do Brasil em homenagem aos seus 50 anos de carreira?

É sempre bom ser reconhecido pelo seu trabalho. Acho isso fundamental, claro. Mas isso não me fascina. O que me fascina é saber que o público me segue a tantos anos, como acontece nos navios da Costa Cruzeiros, aonde faço shows há quase 30 anos, e eles continuam fiéis. E ainda a juventude também está presente.

O que mais o público pode esperar de Dick Danello?

Eu estou escrevendo um livro com o título “Grazia Musica”, pois a música me deu as maiores alegrias da minha vida. É uma autobiografia supervisionada pelo jornalista Rafael Spaca, mas que não é apenas uma biografia. É algo que os jovens têm que conhecer. É ser determinado, acreditar em alguma coisa, é não desistir nunca dos seus sonhos. Eu sempre acreditei, mesmo nas derrotas, nas vitórias… Sempre! E vou continuar acreditando. Em breve, vou lançar, talvez juntamente com o livro, um novo CD: “Menteitaliamente”.

Hoje, Dick Danello está concluindo seu livro autobiográfico, que será lançado em breve. Fotografia do acervo de Dick Danello.

Alguns dos ídolos da Jovem Guarda: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Dick Danello. Fotografia do acervo de Dick Danello.

Dick Danello chegou ao Brasil ainda criança, para viver com seu pai alfaiate, e na década de 1960 participou da Jovem Guarda. Fotografia do acervo de Dick Danello.

Por: Saulo Adami

 

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