Brumadinho e os oportunistas – Por Gabriel Wilhelms

É compreensível a revolta que sentimos diante de uma tragédia como a de Brumadinho, sobretudo pela malgrada lembrança de Mariana. Há porém, uma diferença entre o desejo ardente por justiça, que pode nos cegar ao nos fazer  querer a cabeça de alguém para acalmar nossos ânimos, antes de qualquer investigação que aponte os reais motivos e os eventuais culpados pelo rompimento da barragem, o que é um erro, e o oportunismo de quem usa a tragédia para responsabilizar o irresponsabilizável, o que é canalhice.

A bola da vez dos sicários é a privatização, quando não, o próprio capitalismo. Ainda não foram encontradas e identificadas todas as vítimas (no momento em que escrevo este texto os mortos estão em 115 e os desaparecidos em 248) mas já há gente convicta, mesmo antes de conhecermos a dimensão da tragédia, de que sabe de prontidão o que ocasionou o rompimento da barragem e quem são os culpados. Para estes, o rompimento da barragem, três anos após o rompimento da barragem de Mariana, é um produto da ganância e da busca pelo lucro desenfreado.

Optando por essa ótica, só há uma conclusão possível, a Vale, sabendo da possibilidade de rompimento da barragem ponderou os riscos e os custos que teria que arcar caso a suspeita se concretizasse, e considerou que seria mais vantajoso deixar romper do que desativar a barragem. Segundo esta visão, todas as vidas perdidas teriam sido perdidas porque os executivos da empresa são muquiranas.

Não, não pretendo isentar a Vale de responsabilidade. Certamente alguém cometeu algum erro, e definir quem e qual foi o erro, requer celeridade, porém sensatez por parte da justiça. Sugerir que houve “dolo” por parte da empresa, que deliberadamente permitiram que a barragem se rompesse, é antes de tudo pensar que a empresa é administrada por pessoas muito burras, o que acredito, não seja o caso.

 Até o momento, a Vale já teve R$12,6 bilhões bloqueados pela justiça (praticamente metade do caixa da empresa), perdeu R$71 bilhões em valor de mercado no primeiro pregão após o rompimento da barragem, a maior queda em um único dia da bolsa brasileira, e 17,3% até esta sexta-feira (01), teve a recomendação para investimento alterada por instituições financeiras como HSBC, BMO, Macquarie, Jefferies, Clarksons Platou e Banco do Brasil, e enfrentará processos caros, tendo que arcar com pagamentos de indenizações, multas e o que mais for determinado pela justiça. Além disso, a Vale anunciou que irá descomissionar (como é chamado o processo de desativar por completo uma barragem) todas as barragens que possui como a de Brumadinho, num total de 10 barragens, o que vai custar R$5 bilhões e poderá reduzir a produção da companhia em 10%, segundo o presidente da companhia, Fabio Schvartsman.

Fácil notar que o rompimento não só custará, como já está custando caro para a empresa. Agora, será que os executivos da companhia não eram capazes de dimensionar o nível do prejuízo? Será que o prejuízo ainda assim seria menor do que encerrar a operação da barragem? Como já vimos, o custo para descomissionar dez barragens será de R$5 bilhões, o que por si só é muito inferior ao valor de mercado perdido pela empresa e menos da metade do total bloqueado. É de se supor que  descomissionar uma única barragem teria um custo ainda mais inferior no comparativo.

Diante do que está posto, é fácil perceber que argumentos baseados na “ganância” excessiva dos donos da empresa perdem o sentido, a não ser que se suponha que capitalistas tão vorazes são incapazes de mensurar riscos.

Evidente que alguém cometeu um erro, e a punição deve vir na proporção do erro cometido. Evidente que a empresa tem sim a obrigação de prestar assistência aos afetados e as famílias dos afetados. Porém, é lamentável assistir mais uma vez cadáveres sendo usados para provar argumentos políticos.

O que aconteceu só aconteceu porque a Vale foi privatizada, dizem, e passou a operar sob a “lógica do mercado”. Oras, enquanto estatal ela estava à parte da lógica do mercado? Não visava lucro? Se a resposta para estas perguntas é sim, então mais um motivo para ter sido privatizada. Falando assim faz parecer que se tivesse continuado estatal, nem a tragédia de Mariana nem a de Brumadinho poderiam ter acontecido. Expandido esse raciocínio, sempre que alguma empresa privada fosse protagonista, com dolo ou não, de alguma “cagada”, poderia se sugerir sua estatização, pois em mãos públicas erros não seriam cometidos.

 Para refutar esta linha de argumentação basta uma simples pesquisa no Google. Cito alguns casos envolvendo a mais queridinha dentre as estatais, a Petrobras. . Em 1984, um incêndio na plataforma Anchova, matou 37 funcionários.  Em 2001, duas explosões na plataforma P-36 deixaram 11 mortos. Em 2014, um incêndio na plataforma Namorado 1 (PNA – 1) feriu seis trabalhadores. Tais acidente obviamente não ocorreram em função da natureza estatal da Petrobras, e certamente acidentes do gênero ocorrem em petroleiras privadas. A diferença está na mente de quem faz a leitura, pois sempre há aqueles que se satisfazem quando conseguem alguma tragédia para vender um argumento que não tem relação alguma com a tragédia.

Gabriel Wilhelms

(IMAGEM REVISTA VEJA)

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