Bolsonaro finalmente encontrou um partido à venda- Por Gabriel Wilhelms

No ano passado, na ocasião da discussão da minirreforma política no Congresso um dos pontos mais polêmicos foi a aprovação da criação de um fundo público para financiar as campanhas. Na ocasião disse o óbvio, que não fazia sentido satanizar o fundo ao mesmo tempo em que se opunha ao financiamento eleitoral de pessoas jurídicas. Que fique claro, eu defendia um financiamento de empresas com ressalvas, e me opunha como continuo me opondo ao fundo público como opção. O Brasil tem atualmente 35 partidos, e é possível encontrar no site do TSE 70 partidos em formação. É um número alto, que com frequência é alvo de amplas críticas. De minha parte, não me importaria com um número elevado de partidos, desde que eles fossem autofinanciáveis e não servissem de mera legenda de aluguel, ou de um meio de se extrair os recursos do fundo partidário para fins espúrios.

 Há entre os partidos atuais, diversas legendas minúsculas, desconhecidas pelo povo, irrelevantes, dentre as quais podem existir algumas que prometem um verdadeiro choque de ideias. É o caso do PSL, partido fundado em 1994 que em seu site afirma defender o social-liberalismo, uma menor presença do estado da economia bem como uma diminuição do tamanho do mesmo. Ao responder a pergunta sobre ser de esquerda ou direita podemos encontrar no site: “Aos olhos de um conservador, o PSL é um partido mais a esquerda. Defendemos um autogoverno (liberdade) nos costumes (…). Aos olhos de um socialista ou mesmo um social democrata, o PSL está mais a direita. Defendemos um autogoverno (liberdade) também em questões econômicas”.

 Não obstante a fundamentação ideológica, o partido vinha desde 2015 passando por uma reformulação interna, liberal e mesmo libertária, conhecida como Livres. No site do movimento é possível ler uma posição crítica à política de guerra às drogas e em defesa da legalização da maconha, e uma posição não definida em relação ao aborto.

 Pois bem, este é o partido que anunciou no dia 05 a filiação de Jair Bolsonaro, que agora irá concorrer à presidência pelo partido. Em nota comum emitida, se fala de “total comunhão de pensamentos” e se enfatiza o pensamento “econômico” liberal, na valorização das forças armadas e de segurança, e –prestem muita atenção – em defender os princípios éticos e morais da “família brasileira”.  Após o anúncio, os membros do movimento anunciaram sua desfiliação do partido.

 Para aqueles que defendem Bolsonaro como uma alternativa ao “tradicional” e a velha política – seja lá o que isso signifique – o cenário é deprimente, afinal estamos diante de uma negociata espúria que tem como único fim, para ambas as partes, chegar ao poder, e aí já se demonstrou que vale tudo, desde ignorar supostas bandeiras históricas, até se filiar a um partido de cujas ideias sempre se defendeu o avesso.

Claro que aqueles que nutrem uma fé cega no “mito” não verão a coisa dessa forma, e muitos já se adiantam em enaltecer a aliança e comemorar a debandada dos liberais, e pasmem, os tratando como comunistas por supostamente defender “bandeiras de esquerda”. Ocorre que quem defende apenas a liberdade econômica, mas é favorável a demasiadas restrições no campo da liberdade social, não é liberal. De fato, nenhum grupo se mostra tão defensor e propagandista do capitalismo quanto os liberais, muitos mais do que os conservadores inclusive. O próprio Bolsonaro não é e nem nunca foi um liberal, e mesmo sua atual defesa da liberdade econômica fica comprometida, tanto por ser confusa e pela sua recusa em falar de economia, quanto pelo fato de ele ser historicamente um nacionalista com tendências estatistas. No entanto, para parte da “esclarecida” direita brasileira, se você defender a legalização da maconha ou do casamento gay, mesmo sendo um veemente defensor do capitalismo, você é um socialista.

Vale lembrar, que no ano passado Bolsonaro havia anunciado filiação ao PEN (Partido Ecológico Nacional), que se converteria no Patriota, mas a aliança acabou frustrada, pois segundo o presidente do partido Adilson Barroso, Bolsonaro queria ter um demasiado controle da legenda, inclusive do dinheiro recebido do Fundo Partidário. Na ocasião Barroso disse que “só se fosse débil mental” atenderia a todos pedidos de Bolsonaro. Até então o PSL não parece ter problema em vender a legenda para Bolsonaro e tampouco seu séquito fiel – que não inclui um liberal sequer – parece incomodado com a negociata.

 

Gabriel Wilhelms

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