Bolsonaro é refém de sua patotinha ideológica – Por Gabriel Wilhelms

Levou cerca de quatro meses para a entorno ideológico do presidente, que outrora poderia dar um ar de unidade e coesão, se desintegrar por completo. Assistimos nas últimas semanas os ataques de Carlos Bolsonaro, vulgo Carluxo, contra o vice-presidente Hamilton Mourão, ecoando os próprios ataques do “mentor intelectual” do clã Bolsonaro, Olavo de Carvalho, em especial contra militares membros do governo. A “treta” incluiu publicação de vídeo (posteriormente excluído) de Olavo de Carvalho atacando militares em canal oficial do presidente no You Tube e culminou com nota do próprio presidente em que, apesar de enaltecer o “espírito patriótico” de Olavo, diz que suas recentes declarações “não contribuem para os objetivos do governo”.

 

A novela, que envolve militares, olavistas, o vice e a prole do presidente, demonstra que mesmo aqueles que gravitam na mesma esfera ideológica podem ter dificuldades de falar a mesma língua. Miudezas como estas não deveriam ter grande relevância ou causar maiores impactos, não fosse Jair Bolsonaro sentado na cadeira presidencial. O presidente é refém de sua patotinha ideológica.

 

Não é que eu julgue ideologias algum tipo de aberração ou pense que só governos de centro e sem carimbo ideológico é que são válidos. Candidaturas com digitais fortemente ideológicas fazem parte da democracia. Porém, uma vez que se chega ao poder é preciso ter compreensão que governa-se também para os divergentes. Bolsonaro, já disse isso outras vezes aqui, pensa governar apenas para seu círculo, que, diga-se de passagem, é a despeito de seus votos, uma minoria.

 

Se havia alguma dúvida da envergadura reacionária do governo, ou de que Bolsonaro é um contumaz homofóbico, não pode mais haver após o ridículo episódio de censura do vídeo do Banco do Brasil e demissão do diretor de marketing do banco. O vídeo, de 30 segundos, não mostrava absolutamente nada demais, senão jovens (o público alvo da campanha de marketing) com as mais diversas características.

 

Se os militantes do politicamente correto têm uma hipersensibilidade chata e censora, o mero reconhecimento de qualquer forma de diversidade parece afetar a hipersensibilidade do presidente e seu séquito, que apenas estão no polo extremo oposto, mas têm o mesmo desejo de censura cultural.

 

Não obstante, o planalto havia também determinado que todas as campanhas congêneres de empresas estatais passassem previamente pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), bem como, segundo Lauro Jardim, colunista da Veja, palavras do universo LGBT como “lacrou” e “morri”, estariam proibidas. O ato do planalto foi posteriormente desautorizado pela própria Secom, reconhecendo que feria a lei de estatais. Bolsonaro, convencido de seu papel de “moralizador autocrático” não pensou em consultar algum assessor sobre a viabilidade jurídica de sua intervenção, e apenas causou mais um de seus vexames.

Também, em café da manhã com jornalistas, no mesmo dia em que veio à tona o episódio do BB, Bolsonaro declarou que “o Brasil não pode ser o país do mundo gay, de turismo gay” porque aqui nós “temos famílias”. Talvez o presidente pense que como na distopia de O Admirável Mundo Novo, em que pessoas não mais nascem naturalmente, pessoas LGBTs são paridas em laboratório. Mas o presidente nos tranquiliza porque se for para “vir fazer sexo com mulher”, então está tudo bem.

 

Há temas importantes com o qual o governo deve/deveria se preocupar, como a reforma da previdência, sua pretensa agenda de privatizações, mas o presidente escolhe o caminho do desgaste voluntário, tudo para satisfazer suas ideologias limitadas, de homem limitado e tacanho que é, e as das pessoas de seu entorno, que parecem cada vez mais se canibalizar. Resta saber se o Brasil passará ileso pela patotinha ideológica bolsonariana.

 

Gabriel Wilhelms

 

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