Até quando está certo, Bolsonaro está errado- Por Gabriel Wilhelms

Bolsonaro erra tanto, que mesmo quando eventualmente ele parte de um princípio correto, ainda assim ele acaba errando. Caso mais notório é sua ênfase excessiva no armamento civil. Bolsonaro critica o estatuto do desarmamento, defende a flexibilidade da legislação. Parte de um princípio correto, porém na sequência resolve colocar a coisa como proposta de segurança pública, o que é um desastre. Ao fazê-lo, coloca o armamento civil na ribalta, da forma mais negativa possível, e não apenas se torna um alvo fácil para os desarmamentistas, mas torna também o discurso pró-armamentista um alvo fácil. Quem estaria errado ao replicar Bolsonaro dizendo que nem tudo se resolve na bala?

Seu vício pelo erro se repetiu em sua recente entrevista ao Jornal Nacional. Lá ele trouxe informações falsas, como já amplamente divulgado por agências de checagem de fatos e jornais. Mente ao dizer que o livro Aparelho Sexual e Cia fazia parte do que chama de “kit gay” e que o livro foi distribuído para escolas. Também mente ao dizer que houve algo chamado “Nono Seminário LGBT Infantil”. O que há é o Seminário LGBT no Congresso, que em 2012 teve o tema de discussão “Infância e Sexualidade”.  Os bolsominions dizem que dá no mesmo, mas penso que há uma considerável diferença entre adultos participando de um seminário sobre infância e sexualidade, e de um seminário voltado ao público infantil.

O apelo que foi Bolsonaro levar o livro Aparelho Sexual e Cia para a entrevista demonstra o quanto ele depende desses shows de falso-moralismo. Não fosse assim, ele não teria deixado passar oportunidades preciosas que teve para desconstruir, com classe (o que ele não tem), argumentos tendenciosos que vieram em forma de pergunta. Renata Vasconcellos tomou como assente a informação de que as mulheres ganham até 25% menos que os homens, assim como Bolsonaro, ao não saber como desmistificar a coisa.

Poderia começar dizendo que a pesquisa do IBGE, bem como qualquer outra pesquisa do gênero, mede a diferença salarial “global” de homens e mulheres, e não a diferença salarial para a mesma função. Se conseguisse fazer isso, implodiria a pergunta, afinal, ela lamentavelmente se baseou em uma interpretação errônea do dado. Não o fez, manteve o mito de que mulheres estão ganhando menos que homens por serem mulheres e que, nesse cenário, ele como presidente não faria nada.

Ocorre que o cenário é outro, “globalmente” as mulheres ganham menos por diversas razões, que vão desde o abandono ou interrupção da carreira em função da maternidade, até o fato de que mulheres costumam, muito mais do que os homens, exercer atividades de meio-período. Se uma mulher acredita que está ganhando menos que um colega homem, por ser mulher, então ela de fato tem a faca e o queijo para ganhar uma ação trabalhista. Era uma coisa simples, mas Bolsonaro entrou no jogo e ajudou a fortificar a mentira.

Outra oportunidade perdida, foi quando Renata afirmou que “a cada 19 horas um gay, lésbica ou trans é assassinado ou se suicida por causa de homofobia no Brasil”. Nota-se aqui, e Bolsonaro não notou, que diferente da pergunta sobre a diferença salarial, em que Renata citou o IBGE como fonte, a jornalista não cita a fonte de sua estatística. O candidato perdeu a chance de perguntar.

O dado é o Grupo Gay da Bahia (GGB), representa o registro de mortes violentas de LGBTs no país, e se baseia, segundo seu fundador Luiz Mott em “notícias publicadas na mídia, internet e informações pessoais.” Isto significa dizer que o dado não tem valor científico. Claro que na prática o número poderia até ser maior, ou menor.

Sempre desconfio dessas estatísticas trazidas por organizações do gênero, porque sempre parece haver um exagero para cima. Há, por exemplo, a afirmação recorrente de que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Duvido. De qualquer forma, mesmo sem ser um dado científico, e adequadamente verificado, a repórter formulou sua pergunta com base nele. Bolsonaro poderia ter replicado. Aqui ele não teria muito crédito, é claro, sendo um contumaz homofóbico, mas pelo menos poderia ter questionado quanto a fonte da informação.

Bolsonaro é o candidato de direita dos sonhos de qualquer esquerdista, é um estereótipo, uma caricatura do reacionário brasileiro, com a única diferença que se tornou um pouco menos nacionalista em economia, em razão de seu “casamento” com Paulo Guedes. Isso se soma ao fato de que ele é um alvo fácil. Seus seguidores discordariam, acham que sua agressividade é argumentação, e que insinuações a respeito da fidelidade no casamento do entrevistador, é algo digno de elogio.

Gabriel Wilhelms

 

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