As encrencas de Flávio e o “terceiro turno” – Por Gabriel Wilhelms

As polêmicas envolvendo o primogênito do presidente, Flávio Bolsonaro, primeiro relacionadas ao caso Queiroz e agora a movimentações do próprio senador eleito, bem como o fato de ter empregado em seu gabinete de deputado estadual, até novembro do ano passado, a mãe e esposa do ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de comandar milícias no Rio e atualmente foragido da operação Os Intocáveis, e já homenageado por duas vezes por Flávio na ALERJ (na segunda estava preso preventivamente acusado de homicídio), assim como o major Ronald Paulo Alves Pereira (preso na operação Os Intocáveis), que será julgado pelo envolvimento na tortura e assassinato de quatro jovens em dezembro de 2003,  constituem, talvez, a primeira “crise” do governo Bolsonaro. “Ah, mas trata-se do filho e não do pai”. Infelizmente, para Jair Bolsonaro, essa dissociação não é possível. Talvez até fosse, não tivesse três de seus filhos, incluindo Flávio, metidos na política desde cedo. Não que isso constitua um crime, mas se cada qual obteve logro em suas carreiras políticas, é fácil sacar que foi na carona e por associação com o patriarca. No mais, ao pedir ao STF a suspensão das investigações, Flávio levou o caso para dentro do planalto, e me parece pouco crível que o tenha feito sem consultar o pai.

O país assiste aos desdobramentos, olhando simultaneamente pai e presidente, querendo saber qual falará mais alto. Não que Flávio seja necessariamente culpado de coisa alguma. Pelo que consta, nem investigado é. Não se trata, contudo, de uma forçação de barra suspeitar de Flávio, e certamente não são os moralistas, críticos de tudo que “estava” aí, que sempre fecharam os olhos para certos abusos da lava-jato em nome do combate a corrupção, que estão em condições de aporrinhar quem cobra explicações de Flávio.

Mas não só o presidente e sua família estão sob escrutínio e sendo postos à prova, mas também seus apoiadores mais fieis, incluindo aqui seus subordinados. Atribuo a Onyx Lorenzoni a autoria – ou pelo menos a popularização – da expressão “terceiro turno”, usada pelo então futuro ministro chefe da Casa Civil, se referindo principalmente a divulgação pela imprensa, de matérias consideradas “hostis” ao presidente eleito e seu futuro governo.

Aqueles que já se celebrizaram com a alcunha de “bolsominions” nunca tiveram uma relação muito simpática com a imprensa. Porém, se antes podiam argumentar que o governo ainda nem tinha começado – o que já era um argumento ruim – com os desdobramentos dos “casos” envolvendo o nome de Flávio não têm mais esta desculpa, e, também, se querem uma relação mais direta, há o depósito à esposa de Bolsonaro, e o fato de Nathalia Queiroz (Filha de Queiroz) ter trabalhado por quase dois anos como assessora de Bolsonaro, cumprindo uma carga horária de 40 horas semanais, ao mesmo tempo em que atuava como personal-trainer no Rio em horário comercial.

A questão aqui não é que os “bolsominions” sejam obrigados a virar as costas ao governo e ir para a oposição, mesmo porque, como já disse, nada está provado, mas é sua postura em relação a divulgação das informações o que interessa.

Mesmo que existam veículos de comunicação com linhas editoriais ora claramente situacionistas, ora claramente oposicionistas, é simplesmente impossível a imprensa como um todo “ter lado”, e agir em conluio para satisfazer jogatinas políticas. Isso só poderia ser possível em regimes ditatoriais, onde as vozes dissonantes até existem, mas são caladas pelo governo, e onde o trabalho fiscalizatório é limitado ou extinto, colocando os “subversivos”, jornais e jornalistas, fora de cena.

Em um país democrático, pode-se esperar que ora ou outra surjam notícias incômodas ao governo, e não é por birra, ou por “fabricação de fatos”, mas porque havendo a notícia, havendo o fato, publicasse, e não há poder coercitivo que impeça de publicar.

É puro fanatismo achar que os jornais deveriam ignorar Flávio Bolsonaro e que não deveria se fazer um esforço para se fazer o bom jornalismo investigativo e se catar o que mais fosse possível se catar de informação, e é bom lembrar, que sempre sob a proteção do sigilo da fonte.

Quem gostava muito dessa retórica eram os petistas. Agora não tendo mais os tucanos como principais rivais, e sim os bolsominions (pslista não vai colar), os petistas os assistem trilhando o mesmo caminho: o do ódio a imprensa. Isso é alimentado pelo presidente e pelo próprio Flávio, que na primeira entrevista que deu à rede Record sobre o assunto, fez questão de agradecer à Record pela “oportunidade de resgatar a verdade sobre os fatos“ (como se outros veículos não tivessem interesse em recebê-lo para uma entrevista) e completa: “diferente do que têm acontecido em outros veículos de comunicação”.

Fato é, que Flávio ainda tem muita o que explicar, e usar Queiroz como bode-expiatório, como fez na questão da contratação da mãe e da esposa de Adriano, pode não colar: “A funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho. Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados com informações desse órgão.”  Pouco crível que Flávio acredite que alguém acredite que ele não sabia de quem as duas assessoras eram respectivamente mãe e esposa, ou que estivesse alheio às encrencas com a justiça de seus “homenageados”. Essa suposta conexão com milicianos, aliás, é muito mais grave do que depósitos fracionados em espécie.

Gabriel Wilhelms   

 

Deixe sua opinião