Articulação entre PT e PSB dá duro golpe na esquerda- Por Gabriel Wilhelms

Não obstante ter perdido o centrão para Alckmin, Ciro Gomes sofreu outro revés na sua tentativa de sentar na cadeira presidencial. A articulação do PT com o PSB, que vejam bem, não garante apoio do PSB ao PT na disputa presidencial, mas apenas a neutralidade do partido, que, portanto, não apoiará Ciro Gomes. O PT ainda corteja uma aliança com o PCdoB, também cortejado por Ciro, em que Manuela d´Ávila seria vice do candidato petista. Com isso se concretizando, Ciro permaneceria isolado na disputa, com apenas 36 segundos do tempo de televisão e rádio em cada um dos bois blocos de propaganda.

A estratégia partiu, conforme divulgado em larga escala, diretamente de Lula em sua cela em Curitiba. Em troca da neutralidade, o PT se comprometeu a apoiar os candidatos a governador do PSB nos estados de Amazonas, Amapá, Paraíba e Pernambuco.  

Ao tentar desidratar a candidatura de Ciro Gomes, se tenta minar um rival de esquerda, que pode tirar votos do partido, e fortalecer a candidatura petista, que o partido insiste em ser com Lula na disputa. O que acontecerá, e todos no PT sabem disso, é que a candidatura de Lula será impugnada, e o partido poderá optar por apresentar outro nome à disputa. A maior probabilidade é que esse nome seja do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

É o tipo de aposta concernente com o pragmatismo de Lula, e com sua personalidade autocrática, pois notem, o acordo com o PSB veio de cima para baixo. Os diretórios estaduais e pré-candidatos a governadores do partido não foram consultados. É o caso da vereadora de Recife Marília Arraes (PT-PE) que nas pesquisas aparecia em empate técnico com o atual governador Paulo Câmara (PSB).

De sua parte, Ciro diz que foi “extremamente leal ao ex-presidente por 16 anos”, e se queixa: “Mas o nosso ramo não aceita esse tipo de coisa. A vida é assim, inviabilizar os adversários”. É o tipo de articulação que era de se esperar, afinal Lula usará todos os meios a ele dispostos para que seu partido volte ao poder. Não concebo o PT fazendo uma aliança de esquerda em que ele não seja o carro-chefe, pelo menos no primeiro turno.

Minha aposta é que nos últimos segundos do segundo tempo, outro nome será apresentado, não creio que no alto de sua arrogância, Lula permita que o partido fique sem candidato e se torne apoiador de outro, por mais esquerdista que este seja. Também acredito que esse nome será de Fernando Haddad, e não do também cogitado Jaques Wagner. Entretanto, Lula fora da disputa causa dano imensurável ao PT. Lula e PT são por vezes duas entidades que não se misturam. O primeiro, apesar de seus solavancos judiciais, e de se encontrar preso, continua líder em intenções de voto. Seu partido não conta exatamente com a mesma popularidade, o que pôde ser evidenciado nas eleições municipais de 2016.

O PT sacrificou 4 candidaturas a governos estaduais, para emplacar no último momento o nome de Fernando Haddad (acredito). É certo que Lula conseguirá transferir muitos votos para o ex-prefeito, mas como Haddad não é Lula, ele não receberá todos os votos. Muitos naturalmente verão Ciro Gomes como alternativa de esquerda, motivos da jogada de Lula para desidratar o candidato pedetista. Parte dos votos de Lula poderão inclusive ir para Bolsonaro. Sim, há muitos que embora possam se encontrar mais à esquerda no espectro econômico, e terem saudade da prosperidade do primeiro mandato de Lula, são completamente reacionários em questões de comportamento e, principalmente, no que se refere a segurança pública, entusiastas da ideia de que “bandido bom é bandido morto”.

Como já disse outras vezes, pode ser que semana que vem ou amanhã tudo mude, mas considerando os acertos atuais e tudo o mais constante, não acredito que Haddad conseguiria chegar ao segundo turno, pelo menos não sem dificuldade. Se assim se der a coisa, o PT terá sacrificado 4 estados e perdido o planalto, e a esquerda teria Ciro Gomes enfraquecido e derrotado. É uma estratégia ousada que só beneficia o PT em caso de vitória no segundo turno, de outro modo enfraquecendo o partido. Para a esquerda no geral, representa uma grande derrota.

Gabriel Wilhelms

 

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