Ao que tudo indica, Alckmin leva o centrão- Por Gabriel Wilhelms

Segundo informação trazida pela Folha de S. Paulo, o chamado “centrão”, que até então namorava Ciro Gomes, bateu o martelo e decidiu apoiar Geraldo Alckmin na corrida presidencial. O anúncio oficial deve ocorrer no próximo dia 26. A notícia é péssima para Ciro Gomes, que tentava captar o bloco, e creio que chegou perto de conseguir. Ao longo desse processo, uma das maiores bizarrices foi a insistência de parte do DEM (partido que supostamente tem bandeiras liberais), capitaneada por Rodrigo Maia, em compor com Ciro Gomes.

Com o apoio Alckmin passará a ter, ao invés dos atuais 1 minuto e 18 segundos na propaganda eleitoral (em cada bloco de 12 minutos e meio), 4 minutos e meio do tempo total. A aliança com o centrão pode representar uma mudança no que até então as pesquisas indicaram ser a tendência. Alckmin provavelmente terá condições de aumentar os seus 7% de intenção de votos, afinal, não é possível ignorar o efeito que o tempo de televisão e propaganda têm nas eleições.

Ponto definidor para que Alckmin fosse o escolhido foi a entrada no bloco do PR, de Valdemar Costa Neto (condenado no julgamento do mensalão a sete anos e dez meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro), que até então estudava uma aliança com Jair Bolsonaro.   

É curioso como partidos minúsculos e politicamente irrelevantes podem ganhar tanto poder no jogo de coligações, afinal, cada segundo de propaganda importa. Não é à toa que pejorativamente são chamados de legendas de aluguel. Bolsonaro, por exemplo, conseguiu comprar um partido inteiro. Não, ele não precisou desembolsar nada, creio eu, apenas deu sorte de encontrar um partido fraco o suficiente e que fosse (depois de tentativas malsucedidas) incapaz de gradualmente desenvolver uma agenda interna própria. Tentou compor com o PR, do seu “vice dos sonhos” Magno Malta, mas não houve acordo, nenhum dos partidos estava disposto a ceder nas eleições proporcionais regionais. Bolsonaro também recebeu uma recusa da sua segunda opção, o general Augusto Heleno, do PRP. Sem formar alianças, Bolsonaro teria apenas 8 segundos do tempo de televisão em cada um dos dois blocos diários.

Para sua primeira opção de vice, aliás, Bolsonaro não teve constrangimento em negociar com um partido comandado por um condenado no mensalão. Claro, que o mesmo é verdade agora para Alckmin, e seria para Ciro Gomes, se fosse o caso. É do PR que vem o nome do vice que irá compor a chapa com Alckmin: o empresário Josué Alencar. Trata-se do filho de José Alencar, que foi vice-presidente durante os dois mandatos de Lula, uma dessas ironias da política brasileira.

Além da escolha do vice, o “preço” da aliança implica em que o tucano apoie a candidatura de Eduardo Paes (DEM) ao governo do Rio e a avaliar uma “alternativa de financiamento dos sindicatos” atendendo aí demanda do SD (Solidariedade) de Paulinho da Força, que se queixa que os sindicatos ficaram sem dinheiro após o fim do imposto sindical. É este último o ponto, até então, mais preocupante dessa aliança. O Solidariedade não está exatamente firme no bloco. Paulinho da Força chegou a ligar para Carlos Lupi, presidente do PDT, e teria dito que se o partido conseguisse fechar aliança com as legendas de esquerda, então o Solidariedade poderia abandonar o centrão e apoiar Ciro. Paulinho da Força sofre pressão dos sindicalistas, sobretudo por Alckmin ter deixado claro em seu twitter que “não há plano de trazer de volta a contribuição sindical”. Ciro Gomes por sua vez, defende a revogação da reforma trabalhista.

Acredito que mesmo se o Solidariedade vir a abandonar o barco, não será seguido por outros partidos do centrão. A candidatura de Ciro obviamente fica abalada, e é mais uma ferida na esquerda, que sabendo que Lula está inelegível, e com outras opções fracas como Manuela d’Ávila e Guilherme Boulos, acabará por ter Ciro como sua esperança, sobretudo agora que perdendo o centrão, Ciro tentará se aproximar ainda mais dessas legendas.

Alckmin por sua vez, pode ganhar força com a aliança e ser um contrapeso de centro a Bolsonaro, que até agora não conseguiu compor com ninguém. Pelo andar da carruagem, Alckmin provavelmente terá que disputar o protagonismo do centro com Marina Silva, que como sempre, tentará representar a “nova política”, seja lá que diabos é isso. No entanto, essas são leituras de momento, e semana que vem toda a conjuntura pode mudar, pois em política é certo que nada é certo.

Gabriel Wilhelms

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