Ameaças no STF e tiros a ônibus de Lula colocam Brasil em espiral intimidatória

Faz só duas semanas que o Brasil parou estarrecido diante do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, com quatro tiros que estouraram a sua cabeça. Agora, a execução da política do PSOL e do motorista Anderson Gomes parecem ser apenas mais um episódio dentro da escalada de violência e intimidações em que o país mergulhou nas últimas semanas. Nesta terça, três disparos de arma de fogo atingiram dois dos três ônibus da caravana do ex-presidente Lula pelos Estados do sul do Brasil, entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no Paraná. As balas danificaram a lataria dos ônibus mas não atingiram ninguém. O ex-presidente não estava em nenhum dos ônibus atingidos.

Poucas horas antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da operação Lava Jato, Edson Fachin, disse em entrevista à Globo News, que ele e sua família estão sofrendo ameaças, embora não tenha especificado o teor das intimidações. As ameaças ocorreram há três semanas e, desde então, a segurança de Fachin começou a ser reforçada. “Nos dias atuais uma das preocupações que tenho não é só com julgamentos, mas também com segurança de membros de minha família”, disse o ministro ao jornalista Roberto D’Ávila.

A caravana de Lula, por sua vez, já vinha experimentando um clima de hostilidade, com o bloqueio de acesso a algumas áreas, barricadas, ovos e até pedras arremessados contra Lula e sua militância. Nesta segunda-feira, a equipe do ex-presidente foi flagrada em uma cena censurável: um segurança de Lula agrediu o jornalista Sergio Roxo, do jornal O Globo quando ele filmava com o celular cenas de protestos contra a caravana.

Mas os tiros inesperados aumentaram o fogo do caldeirão em que o país se meteu neste ano eleitoral, ainda imerso na polarização política. Desde que o ex-presidente, que lidera as pesquisas de intenção de voto, foi condenado a 12 anos e um mês de prisão no Tribunal Regional Federal da Região 4 em (TRF-4), em janeiro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, o partido decidiu mantê-lo como pré-candidato. O gesto tem sido visto como uma afronta pelos antipetistas que fazem questão de hostilizá-lo publicamente. As cenas filmadas da chuva de ovos atirada contra a caravana mostram bem essa realidade.

O Supremo, por outro lado, vive os reflexos da polarização mais radical com o julgamento do habeas corpus de Lula, marcado para o dia 4 próximo. Se a Corte acatar o pedido da defesa do petista, poderia livrá-lo da prisão no caso do triplex do Guarujá. A pressão aumentou, seja por ameaças veladas como as relatadas por Fachin, mas também em comentários públicos, como o tuíte do general Paulo Chagas, que faz um alerta ao STF. “Cumpro o dever cívico e cristão de alertá-los para o risco de brincar com a passividade do povo e com a paciência de quem, em silêncio, apenas observa e avalia, porque, quando o futuro e a segurança da Nação estão em jogo, tanto quanto o silêncio do lobo, a passividade pode, num repente, dar lugar à cólera das multidões”, afirmou. Também o grupo Movimento Brasil Livre tem feito convocatórias para protestos no dia 3, sob o lema “Ou você vai, ou ele [Lula] volta”.

Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.

Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.

Reações sob clima belicoso e eleitoral

Na noite de terça, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi o primeiro do staff do Governo Temer a repudiar os tiros à caravana petista. “Isso é absolutamente antidemocrático”, disse em uma entrevista coletiva em Brasília afirmando que não se pode “admitir confrontos”. Nesta quarta, foi a vez do próprio presidente Michel Temer se manifestar pelas redes sociais. “Lamento o que aconteceu com a caravana do ex-presidente Lula. Desde quando assumi o governo, venho dizendo que nós precisamos reunificar os brasileiros. Precisamos pacificar o País. Essa onda de violência, esse clima de ‘uns contra outros’ não pode continuar”, escreveu ele, mencionando o jargão adotado por Lula do “nós contra eles”, que inflama ainda mais a divisão do país.

 

O clima belicoso – e eleitoral – também abriu espaço para declarações infelizes, como a do governador e pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB) que afirmou na noite de terça que com os tiros à caravana “o PT colhe o que plantaram”. A frase foi lida como a legitimação da violência que poderia ter matado integrantes da comitiva além dos jornalistas que acompanham a carreata, e que estavam no ônibus atingido pelos disparos. O prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista,João Doria (PSDB), seguiu na mesma linha ao afirmar que “o PT sempre utilizou de violência, agora sofreu da própria violência”.

O mal-estar com a frase dos dois tucanos foi a deixa para que outros políticos moldassem os discursos desta quarta. De Henrique Meirelles, ministro da Fazenda e potencial pré-candidato, ao próprio Alckmin e Ciro Gomes (PDT), se manifestaram pelas redes sociais repudiando os tiros. “Toda forma de violência tem que ser condenada. É papel das autoridades apurar e punir os tiros contra a caravana do PT. E é papel de homens públicos pregar a paz e a união entre os brasileiros. O país está cansado de divisão e da convocação ao conflito”, escreveu Alckmin no twitter. Marina Silva, da Rede, Guilherme Boulous, do PSOL, já haviam se posicionado apontando a gravidade dos disparos na própria terça. O silêncio de Jair Bolsonaro também foi notado diante da gravidade dos fatos.

Fonte: El País

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