A realidade da doutrinação nas escolas- Entrevista com uma mãe – Por Gabriel Wilhelms

Já falei outras vezes nesse espaço: doutrinação ideológica é sim uma realidade em escolas brasileiras. Dia após dia, diversos casos são relatados. Dessa vez o ocorrido foi na cidade de Maricá, no Rio de Janeiro. Conversei com Erika Passos, mãe de um aluno de 13 anos de uma escola do município. O relato dela, publicado inicialmente em um texto no facebook, viralizou.

No texto, e na conversa que tivemos, Erika relata que inicialmente seu filho chegou em casa com um bilhete, entregue em “sala de aula” pela UMES (União Maricaense dos Estudantes). Seu filho disse se tratar de um passeio, e o marido de Erika assinou o bilhete, afinal, não havia nada no papel que insinuasse do que realmente se tratava.  Erika relata que lhe espantou o fato de o bilhete da UMES ter tido sua distribuição autorizada pela Secretaria de Educação e a ausência de um documento que orientasse os pais sobre o conteúdo. O bilhete apenas dizia que se tratava de um Congresso. Além disso, o bilhete isentava a UMES de qualquer responsabilidade em relação as crianças, caso ocorresse algum acidente, por exemplo.

Com o bilhete assinado, seu filho foi para o dito passeio. No texto, Erika relata que estava tranquila, afinal se tratava de um passeio da escola. No entanto, ao passar pelo centro da cidade ouviu barulhos de uma manifestação com gritos de Fora Temer. Erika decidiu ligar para seu filho, e constatou que de fato ele estava “dentro de uma reunião política tramada pela UMES”, que ocorria dentro de um clube. Disse para que ele saísse de lá, e ao chegar presenciou “professores” e adolescentes vestidos com camisas do Che Guevara, bonés com bandeira de Cuba e fumando cigarros. Erika retirou seu filho do clube antes que eles fossem para a manifestação, mas conseguiu filmar as crianças e adolescentes saindo para a passeata aos gritos de Fora Temer. Segundo Erika, os alunos maiores, da faixa de 16 e 17 anos, ao perceber do que se tratava o Congresso quiseram sair, mas foram impedidos pela UMES. Crianças e adolescentes teriam passado mal, inclusive com fome, pois ficaram das 08h até as 15h sobre o comando da UMES, enquanto diretores postavam fotos comemorando o evento. Erika diz: “vejo vários tipos de crime, não só a doutrinação, como maus-tratos ali também, coisa que o Conselho Tutelar não conseguiu enxergar”.

 Erika diz não ter dúvida de que, não apenas seu filho, mas todas as crianças de Maricá estão sendo vítimas de doutrinação. Diz ainda que a sede da UMES é do lado, ou dentro do espaço do PT, que eles também tem uma casa alugada, onde todo o muro é pichado e escrito “Lula Livre”, que é onde esses jovens se reúnem e ainda cita relatos que ouviu de que rola inclusive droga, que não seria vendida e sim “ofertada”. Na página do movimento é possível ver um vídeo do referido congresso, onde se nota, sem sombra de dúvida, o tom político.

A doutrinação em sala de aula ocorre a anos, em várias escolas país afora, mas o que assustou nesse caso é que a coisa foi levada para um nível muito mais descarado. Não eram estudantes que foram convidados, cujos pais foram devidamente informados do que se tratava, e que lá estavam “fora do horário de aula”. Não, a distribuição do bilhete se deu com a anuência da Secretaria de Educação, ou pelo menos com sua omissão, e o festival de doutrinação que culminou com uma passeata política, ocorreu no momento em que os estudantes deveriam estar na escola.

Diante disso, certamente há quem reclamará o direito à liberdade de expressão dos envolvidos. Ora, isso é de um cinismo de dar nojo. Como cidadãos, nada os impede de terem sua preferência política, de a manifestarem no local e espaço adequado. Isso não lhes dá o direito de abusar da audiência cativa que têm, de impor a sua pauta aos alunos.

Erika, que é professora, e, portanto, vê de dentro o que acontece em termos de doutrinação, diz que desde a publicação do texto tem recebido ofensas, inclusive de colegas de profissão, de pessoas que trabalharam com ela. Ela diz que esses colegas “não se veem como doutrinadores, eles acham que estão fazendo o certo, que estão certos ao passar uma orientação diferente da que se passa em casa, dentro de uma escola, sem direito a resposta.”

É importante notar que os doutrinadores contumazes normalmente não se apresentam com ar autoritário, são na verdade lobos em pele de cordeiro. Seduzem os estudantes com discursos de apelo emocional e social, e tem a audácia de dizer que os estudantes são livres para seguir o quiserem. Como serão livres, se lhes colocam um cabresto e impedem o acesso ao contraditório? A coisa é grave, existe uma visão de posse. Há educadores, militantes do movimento estudantil e gestores públicos da educação, que engrandecidos com sua posição (por mais irrelevante que possa ser), pensam que, pelo menos por um punhado de horas, são proprietários das mentes dos alunos e que podem fazer livremente o que quiserem, sobretudo se for para livrar a criança do “fascismo familiar”. Eles pretendem ter o monopólio do senso crítico.

Erika está juntando assinaturas para ingressar com uma Ação Pública no MP, contando com a ajuda de um corpo jurídico que se voluntariou. Contatei as outras partes envolvidas. A prefeitura de Maricá disse que o assunto deveria ser tratado com a Secretaria de Educação, mas não obtive sucesso no contato com a mesma. A UMES não respondeu meu contato até a conclusão desta coluna.

A coisa é séria, e requer enfrentamento. É importante que os pais fiquem atentos e se mobilizem sempre que houver sinais de que o espaço escolar está sendo usado para objetivos escusos. Se a educação pública brasileira persegue o objetivo de ser democrática, é uma incongruência que o poder público se cale, ou mesmo incentive o sequestro da mesma por um grupo, seja qual for, pois como diz Erika: “Se a escola está ali, na mão da máquina, ela tem um livre acesso e, de repente, você não tem o direito da sua resposta, então você está lidando não com uma escola democrática”.

Gabriel Wilhelms

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