A Propina Compensa

Em depoimento ao TSE referente à ação que investiga a chapa Dilma-Temer por irregularidades na campanha, o ex-diretor de Infraestrutura da Odebrecht, Benedicto Barbosa, disse na quinta-feira passada que a empresa reservou R$200 milhões para doações eleitorais em 2014. Desse montante, apenas R$120 milhões foram legalmente pagos e registrados, sendo que do restante, R$40 milhões teriam sido pagos por intermédio da cervejaria Itaipava, e R$40 milhões por caixa dois. Esta é uma módica quantia se levarmos em conta que segundo o site O Antagonista, o ex-executivo Hilberto Mascarenhas da Silva Filho,  ligado ao departamento de propina da Odebrecht, disse em depoimento ao TSE que a empresa movimentou entre 2006 e 2014 a quantia de 3 bilhões e 390 milhões de dólares em propina.

A cifra assusta, ainda mais quando pensamos que tal prática- a de financiar campanha por baixo dos panos- é rotineira, pelo menos entre empresas de setores que participam ou têm interesse em participar de licitações, como o caso de empreiteiras. Não precisamos raciocinar muito para descobrir o motivo que levam essas empresas a torrarem milhões, ou mesmo bilhões financiando campanhas país afora, isso sem contar é claro o que é pago por meio de propina em anos não eleitorais, para a consecução de objetivos corruptivos específicos. A corrupção na Petrobras, investigada pela Operação Lava Jato se trata justamente disso, um esquema complexo de abastecimento de propinas para financiamento de principalmente três partidos: PT, PMDB e PP.
A questão é que para essas empresas o crime compensa. Um documento divulgado pelo Ministério Público da Suíça em 2016, em que justifica a aplicação de uma multa equivalente à R$635 milhões de reais à Odebrecht, aponta que para cada 1 milhão pago em propina pela empreiteira, esta obtia lucro de 4 milhões. De fato, nenhuma empresa paga propina para um partido ou político por afinidade ideológica, até mesmo porque o dinheiro sempre é distribuído entre vários partidos (mesmo os de oposição) e campanhas.

É importante garantir, que quem vencer o pleito vai beneficiar a empresa “doadora” de alguma forma. O mesmo se dá para conseguir contratos com empresas ou obras públicas, pessoas influentes de diversos partidos são pagas para este fim. Não é a toa que a Odebrecht destinou um setor inteiro para o pagamento de propinas, isto era uma parte relevante para todo o negócio. Do lado de quem recebe o risco também compensa, pelo menos até serem pegos. Pergunto-me quantos políticos, notáveis ou não, construíram sua carreira e fortuna, financiados pelo dinheiro sujo da corrupção, especialmente dessa forma de corrupção.
O que ocorre aqui é a corrupção comungada entre setor público e privado, em que o setor privado, e vale lembrar, algumas empresas específicas do setor privado minam a concorrência se valendo de uma proteção estatal não oficial. É um corporativismo que existe não por razões ideológicas, embora tão rançoso quanto, mas como resultado da negociata. E o resultado, além do óbvio malefício da corrupção, é prejudicial também à nossa democracia representativa, pois uma vez que os meios para ocupar e se manter em cargos eletivos são infectados por uma promíscua troca de favores, aqueles com a incumbência de representar o povo acabam por representar apenas grupos específicos, uma elite espúria. No setor público, uma elite de “notáveis” que sempre conseguirão renovar seus mandatos, no setor privado uma elite de empresas e executivos que ocupam posições de liderança, não por competência, mas por literalmente pagar por isso.

Gabriel Wilhelms

Deixe sua opinião