A Nudez no Carnaval

É época da festa mais tradicional do Brasil, e com ela alguns ritos que já são tradicionais. Por exemplo, não consigo me recordar de um carnaval em que não tenha escutado alguém negar a brasilidade da festa por não ser historicamente de origem brasileira, o que convenhamos não muda o fato de que o nosso carnaval é o mais conhecido do planeta, sendo este um dos estereótipos (que nem sempre precisam ser negativos) sobre o Brasil no exterior.

Já é ritualístico também o acirramento das queixas políticas nesse período do ano. Em suma o cidadão deve arcar com uma carga tributária aí estimada em torno de 34% do PIB com a costumeira promessa de que ao menos terá um conjunto adequado de serviços em contrapartida. Não tem, e de repente ele se depara com notícias a respeito do montante de dinheiro público gasto com o carnaval país afora. Ele se revolta, é compreensível.
Mas não é o financiamento do carnaval o foco desse texto e sim a que eu considero a crítica mais constante e insistente: a da nudez no carnaval. Na verdade seminudez seria o termo mais adequado já que dificilmente uma mulher estará completamente nua na avenida, há a fantasia ou a pintura ou um conjunto dos dois cobrindo parte do corpo.

Vejo a nudez aqui com um contexto totalmente artístico, não obsceno. É essa distinção que muitas pessoas não conseguem fazer. Pode ser o mesmo nú (ou seminu), da mesma pessoa, mas em contextos diferentes deve despertar reações também diferentes, pois não há como comparar a nudez de certos filmes adultos que tem um objetivo muito claro com a nudez de alguns atores em uma peça de teatro, por exemplo, em que isso esteja num contexto em que a ausência de roupas é necessária para comunicar algo.

Com a seminudez no carnaval penso se dar o mesmo. O que as escolas de samba querem comunicar com isso eu não vou me arriscar a decifrar. Talvez não haja um objetivo definido, talvez seja algo que de tão reprisado já está incorporado nos desfiles. De qualquer forma, me parece claro que não se trata como sugerem alguns críticos de atrair um público específico para o carnaval, o masculino no caso. Talvez isso ocorra por consequência, não sei, mas não vejo nada ali que não seja puramente artístico.
Há ainda que se pensar que o carnaval como conhecemos hoje não é o mesmo de um século atrás, por exemplo, nem a música que embala os foliões é a mesma. As fantasias espalhafatosas e a exibição do corpo fazem parte desse processo de transformação e é possível que daqui há cinquenta anos a festa tenha mudado completamente, afinal a sociedade também terá mudado. Esperemos que para melhor.

Gabriel Wilhelms

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