A novela dos fretes- Por Gabriel Wilhelms

Um governo democrático sempre deve estar aberto a escutar, a conversar, e mesmo a negociar, o que não significa que precisa acatar qualquer demanda histérica e perniciosa. No que tange à greve dos caminhoneiros, o governo foi antes de tudo frouxo, esperando até o nono dia de obstrução de vias para baixar um decreto determinando a desobstrução, e foi permissivo demais ao atender às demandas, que como já disse em textos anteriores, não tinham nada de justas.

Um dos maus criados pela “solução” do governo foi a publicação da tabela com preços mínimos de frete. Ocorreu o que era previsível, poucos dias depois, e afagado um setor, outros – especialmente o do agronegócio – passaram a reclamar, se sentido lesados pelos preços. Houve inclusive decisões liminares sustando os efeitos da medida para algumas empresas. A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) publicou nova tabela no dia 07, baixando os valores anteriores em média 20%. A nova tabela durou poucas horas, diante das queixas dos representantes dos caminhoneiros, foi revogada. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) já informou que acionará o Supremo contra o tabelamento.

 Há duas lições preciosas a serem aprendidas aqui, uma de ordem econômica e outra política. A primeira não é novidade, ou pelo menos não deveria ser, mas quando o governo resolve regular preços, com o perdão da palavra, é certo que vai dar merda. O problema aqui não é a réplica dos outros setores, que viram com razão interferência em preços que deveriam ser definidos por concorrência, doa a quem doer, mas sim do pecado original, da regulação arbitrária de preços. Aliás, sempre que um setor exigir do governo o tabelamento de seus preços, é certo que estão visando aumentar, em detrimento de todos mais, os preços que não conseguiriam aumentar de outra forma.

A lição de ordem política também era previsível. Quando o governo atendeu a sequência de demandas classistas, o fez certamente pensando que acabaria de vez com o problema, não considerou os efeitos adversos em outros setores. Agora, talvez o governo perceba que mesmo cedendo da forma que cedeu nas negociações com os caminhoneiros, isso não o livrou de uma nova crise, que pode estar se anunciando. O país aprendeu que o governo é passível de chantagem, então resta saber como se posicionariam os brasileiros se os produtores do agronegócio resolvessem colocar seus tratores de greve, mas dessa vez, com interesses diametralmente opostos ao dos caminhoneiros. Não estou prevendo nada e nem sugerindo isso, mas essa hipótese, teria o efeito de dar um curto circuito no cérebro de quem apoiou a greve dos caminhoneiros e agora se veria dividido entre agricultores e caminhoneiros.

O governo tentou resolver um problema criando outro, o que só poderia resultar em fracasso. Não pode ter sido para perseguir uma popularidade que não existe, e se foi para pacificar as coisas, tudo leva a crer que falou miseravelmente. Mas sejamos justos, não houve uma única personalidade política nesse país, de nome nacional, ao menos, que tenha tido a coragem de chamar a greve do que ela foi: uma chantagem, e tampouco de dizer que as medidas adotadas em resposta eram verdadeiros privilégios e economicamente estúpidas.   

Gabriel Wilhelms

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