A diplomacia brasileira contra o “globalismo”?! – Por Gabriel Wilhelms

Bolsonaro anunciou o embaixador Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores de seu governo. Em entrevista no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde funciona o gabinete de transição, o presidente eleito declarou que competirá ao futuro ministro: Obviamente motivar o MRE (Ministério das Relações Exteriores), incrementar a questão de negócios com o mundo todo sem o viés ideológico, não interessa se de um lado ou de outro”.

A promessa de que as Relações Exteriores do país não serão pautadas por “viés ideológico”, é uma promessa que vem da campanha de Bolsonaro. Curioso notar, entretanto, que o futuro chanceler está longe da neutralidade ideológica. Mantém, como amplamente noticiado, um blog intitulado Metapolítica 17: Contra o Globalismo.

 

Assim o autor se apresenta: “Sou Ernesto Araújo. Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anticristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história”.

 O embaixador tem todo o direito de manter um blog com suas opiniões políticas, mas o conteúdo é o que interessa. Logo em sua apresentação notamos que é um “antiglobalista”. A extrema-direita, especialmente a capitaneada pelo filósofo Olavo de Carvalho, têm se voltado contra o que chamam de “globalismo” ultimamente e com sua suposta agenda marxista. Também notamos a forte conexão que estabelece entre deus e a política, uma conexão que sempre julgo imprópria.

 O blog, que foi criado durante a campanha eleitoral, presta um apoio muito claro a Bolsonaro e ataca ferozmente o PT, ali tratado como “Partido Terrorista”.

Ernesto Araújo foi autor de um artigo em 2017, intitulado Trump e o Ocidente. Segue o resumo do artigo: “O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil necessita refletir e definir se faz parte desse Ocidente.” Além da reverência a Bolsonaro, fica claro sua reverência a Trump, justificando a alcunha que o embaixador já recebeu de “trumpista”. Transforma o presidente americano numa espécie de cavaleiro celestial, que cumpre a missão de colocar o Ocidente de volta nos eixos, e vê Bolsonaro como a versão tupiniquim do mesmo.

 É irônico que esta reverência a Trump, um antiliberal, cujo protecionismo serve a seu nacionalismo, algo aparentemente tão caro ao novo chanceler, conviva com a reverência ao Bolsonaro de Paulo Guedes, figura que tenta dar ao governo eleito uma cara “liberal” e amigável ao mercado, para apaziguar anos de comportamento estatista. Penso que dos dois futuros ministros, Guedes e Araújo, o Araújo é que o mais parece se aproximar do Bolsonaro “raiz”. Aliás, é curioso, como Bolsonaro consegue reunir em seu entorno visões que se mutilam entre si. Seu vice, por exemplo, é do PRTB de Levy Fidelix, que sempre rejeitou o liberalismo, se definindo como um keynesiano. Seria tudo isso um virtuoso sinal de pluralidade? Não, creio que não, só ódio comum pela esquerda mesmo.

 Claro que opiniões expressadas em um blog não significam que a gestão de Araújo será ruim, mas para ser boa, ele terá que deixar tudo isso na gaveta e circunscrito ao seu blog. A última coisa que o Brasil precisa é de um chanceler falando contra o “marxismo cultural” em nome do cargo.

A promessa de manter relações sem “viés ideológico” não pode ser uma desculpa do governo para simplesmente buscar parceiros antagônicos aos buscados pelo antigo governo, em detrimento de outros, em nome de simpatias particulares do mandatário, ou de teóricos conspiracionista do “globalismo”.  

A promessa de Bolsonaro de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo a cidade como capital de Israel, tomando partido em uma disputa local e religiosa que dura décadas, se levada a cabo, poderá trazer consequências desastrosas para o país, uma vez que causará embaraços junto aos países árabes, importantes parceiros comercias do país, representando, para citar um exemplo, 40% das exportações de carne bovina do país.

Há poucos dias, o governo egípcio cancelou uma visita diplomática do atual chanceler, Aloysio Nunes Ferreira, alegando “mudanças na agenda”, mas o ato foi visto por diplomatas como uma possível retaliação pelas declarações de Bolsonaro. A Liga dos Países Árabes chegou a enviar uma nota à embaixada brasileira no Cairo, condenando as declarações de Bolsonaro.

Bolsonaro passou anos criticando a proximidade dos governos petistas com os governos de países como Cuba, Venezuela e Bolívia, mas se insistir na troca de embaixada, simplesmente estará seguindo o que dita sua predileção pessoal em relação à Israel. Com ações como essa, que encontrariam guarida no que pensa o futuro chanceler, não se retira o viés ideológico da diplomacia coisíssima nenhuma, mas apena o substitui por um viés diferente. Algo parecido com o que tentam fazer com o Escola Sem Partido, mas isso é assunto para outra hora.

Gabriel Wilhelms

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