A constituição dos “notáveis” – Por Gabriel Wilhelms

Um dia após sugerir que o país faça uma nova Constituição, que seria elaborada por “notáveis” e não por uma assembleia constituinte, eleita por povo, o que significa dizer, uma constituição sem participação popular, o general da reserva Hamilton Mourão, candidato a vice na chapa de Bolsonaro, respondeu as críticas de que sua ideia seria antidemocrática: “Não sei porque eu sou antidemocrático. Mas tudo bem, deixa pra lá. É um carimbo que querem colocar em mim, que eu rejeito”.

É muito típico do general, bem como do capitão para quem ele bate continência, falar esse tipo de bobagem e depois adotar uma postura defensiva, de perseguidos pela opinião pública. No máximo são perseguidos pelo bom-senso.

A crítica a nossa constituição é legítima. Ela é anormalmente grande, aborda questões que deveriam ser sim matéria de leis ordinárias, e é uma das grandes responsáveis pelos frangalhos em que se encontram as contas públicas. Eventualmente uma nova constituinte pode ser sim necessária. Sugerir fazer isso sem que o povo eleja os artífices dessa nova constituição é grotesco. “Ah, mas o povo teria o poder de aprovar ou não o texto por meio de referendo”, dirão. Pelo sim, aprova-se algo que irá basilar as leis a que se submetem um povo, sem a participação desse povo. Pelo não, perde-se, por desgaste, a oportunidade de fazer uma nova constituição, essa sim com participação popular.

Ao soltar a pérola, Mourão deixou claro que essa era sua opinião pessoal e não a de Bolsonaro.  A grande questão aqui não é se uma vez eleitos eles fossem realmente tentar fazer isso, coisa que simplesmente não conseguiriam, mas o fato de que um candidato a vice, que sempre é – aprendam petistas- um presidente em potencial, acha isso normal.

Mourão já polemizou quando ainda estava na ativa, em 2015 por fazer críticas ao governo Dilma, e a mais recente, no final do ano passado, ao falar da possibilidade de uma intervenção militar.   

 Das duas uma, ou lhe falta bom senso, ou ele tenta testar a temperatura, tenta ver como esse tipo de coisa repercute, almejando, sei lá qual objetivo.

Uma constituição feita por notáveis, vai em linha com sua declaração sobre a intervenção militar, que é a ideia de tutelamento, de achar que o povo deve ser guiado por forças exteriores a constituição e as instituições. Isso não é outra coisa senão fruto de um espírito autoritário. Não estou dizendo necessariamente que Mourão é autoritário, mas as duas declarações supracitadas o são.

Eu tenho o hábito de catalogar candidatos ideologicamente – entendam ideologia aqui como conjunto de ideias. De fato, em épocas de eleição é comum eu procurar candidatos que são uma possibilidade de voto, e lhes fazer perguntas, muitas vezes sobre questões polêmicas, dependendo do cargo para o qual concorrem, no intuito de tentar ver como essa pessoa pensa e imaginar como ela votaria, ou decidiria, em determinados cenários. Considero isso mais eficiente do que perguntar: você é de esquerda ou direita? Não acho que categorizar candidatos ideologicamente seja ultrapassado, e não confio em candidatos que não tem ideias e que propõe consultar o povo até para ir ao banheiro. Acredito que declarações, como as feitas por Mourão, alinhadas com outros fatores, dizem muito sobre como ele pensa. O mesmo vale para seu capitão.

Gabriel Wilhelms

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