A Carta de Palocci- Por Gabriel Wilhelms

Na terça-feira dessa semana, o ex-ministro Antonio Palocci enviou uma carta ao Partido dos Trabalhadores em que, entre outras coisas, oferece a sua desfiliação.

As declarações da carta se dão após a abertura de um processo no diretório do PT em Ribeirão Preto (SP), que poderia culminar na expulsão de Palocci do partido. O processo interno se deu após Palocci fazer declarações “hostis” a Lula em depoimento ao juiz Sérgio Moro.

 O conteúdo da carta é simbólico, sobretudo por vir de quem está vindo. Palocci, que em Junho foi condenado a 12 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da operação Lava Jato, é um dos fundadores do PT e foi ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula.

 É claro que a carta pode ser entendida como cínica, ou como uma tentativa de se redimir perante a opinião pública, o que poderia remeter ao caso do ex-senador do PT Delcídio do Amaral, que se tornou delator e passou para o lado da artilharia contra o partido que esteve desde 2001. Mas independente disso, há coisas na carta que não podem ser ignoradas.

 De início, Palocci diz que recebeu com estranheza a notícia sobre o processo disciplinar, pois muito embora condenado na 13º Vara Federal de Curitiba e esperando que o partido procurasse saber as razões que levaram a condenação, o partido nada fez a respeito. A mim não causa muita surpresa, haja vista que a própria presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann é ré na Lava Jato. Claro que ser ré não se equivale a condenação, mas foi seu partido quem escolheu lhe dar tal publicidade.

No decorrer da carta Palocci diz estar colaborando com a Justiça, e sugere que o partido faça o mesmo, uma espécie de acordo de leniência, o que evidentemente o partido não tem interesse em fazer, pois isso acabaria com o discurso de perseguição política.

Sobre Lula, Palocci diz não poder dar muitos detalhes, pois está em processo de negociação de sua delação. No entanto, ele afirma que os fatos descritos em seu depoimento a respeito da compra do prédio para o Instituto Lula, doações da Odebrecht ao PT, ao instituto e a Lula, reunião com Dilma e Gabrielli entre outros, são todos absolutamente verdadeiros. Diz ainda acreditar que o próprio Lula um dia confirmará isso e fala que é preciso avançar na abertura da caixa preta dos partidos e dos governos. Sobre Lula, ele afirmou no depoimento de 06/09 que: este tinha um pacto de sangue com Emilio Odebrecht que envolvia o terreno para o instituto Lula, o famoso sítio de Atibaia, além de R$300 milhões de propina para o partido, que R$4 milhões foram pagos da Odebrecht para o Instituto Lula, entre outras coisas.  Palocci também diz que um dia Dilma e Sérgio Gabrielli falarão da perplexidade que tomou conta deles, após a reunião em que Lula teria encomendado propinas oriundas de contratos do pré-sal para financiar a campanha de Dilma em 2010.

 Palocci ficou 36 anos no PT, partido que ajudou a fundar, e diz ter ficado sabendo do processo disciplinar aberto por meio de notícias, diz ainda que enquanto se manteve calado foi enaltecido por um palavrório vazio, mas quando resolveu falar a verdade, se viu diante de um tribunal inquisitorial. É claro que Palocci terá que apresentar provas de suas alegações, e claro também que a mera acusação não torna ninguém culpado, mas porque o ex-ministro, alguém que ajudou a fundar o partido, não foi chamado para dar sua versão dos fatos? É de se supor, obviamente, que o mesmo não ocorreu e nem ocorrerá com nenhum dos citados, especialmente com Lula, a “alma mais honesta do país”. O PT que sempre foi ferrenho na oposição, que adota a retórica de golpe contra Dilma, mas pediu o impeachment de todos os presidentes desde a redemocratização, que sempre escolheu o poder e a retórica partidária ao invés da estabilidade econômica e política, não é capaz de assumir seus erros, ou de pelo menos avaliar se os erros apontados realmente existiram. Mas por quê? Porque isso implicaria questionar, ou mesmo sacrificar aquele que é a única esperança do partido para 2018. Tanto é a única esperança, como já se fala em boicotar as eleições, não lançando candidato, caso Lula não possa concorrer. Abraçados com Lula, cairão junto com ele, porque, ah sim, e aí estabeleço meu juízo de valor, tenho certeza de que essa queda virá, cedo ou tarde. Mas não só por isso é claro, porque do mesmo modo que desde o mensalão sempre se tenta poupar Lula, há muitos lá que tentam poupar a si mesmos.

 

Gabriel Wilhelms

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