A ascensão de Bolsonaro- o que explica? – Por Gabriel Wilhelms

O resultado das urnas no último dia 28 certamente não causou surpresa a ninguém. Jair Messias Bolsonaro foi eleito o 38º presidente do Brasil. Se há um ano atrás alguém me dissesse que ele seria eleito, eu diria que isso seria improvável. Se me dissessem a quatro anos atrás, que foi quando ele começou a se lançar como candidato, eu diria que seria impossível. Pelo seu perfil truculento e seu vasto repertório de bobagens e preconceitos e por acreditar que é o centro quem sempre tende a resolver as eleições por aqui, há quatro anos atrás sequer julgaria possível que ele chegasse ao segundo turno. Vivendo e aprendendo.

Em minha defesa, devo dizer que o período compreendido entre 2014 e 2018 foi de acontecimentos cinematográficos no cenário político nacional, com consequências que só agora percebemos.

Bolsonaro não é uma unanimidade, foi eleito com 55,13% dos votos válidos, o que por si só não é uma diferença tão abismal, porém, obteve 39,23% dos votos totais, o que torna sua “não-unanimidade” mais aparente. No dia 28, mais de 11 milhões de pessoas votaram nulo ou branco, registrando-se o maior número de votos nulos de 1989. É um número relevante de eleitores que rejeitaram ambas opções. Considerando o número de abstenções, em que 21,3% do total de eleitores não compareceu às urnas, 42,1 milhões dos eleitores não escolheram nenhum dos dois candidatos. Bolsonaro ganhou, mas o recado é claro: ele é amplamente rejeitado, e apenas na base do diálogo com vozes dissonantes, e não com sua contumaz truculência, seria capaz de reverter o quadro.

 

Acredito que uma soma de fatores explica a ascensão do capitão da reserva, e os apresentarei, não necessariamente em ordem de importância.

 

 Bolsonaro conseguiu impor uma derrota ao PT, o partido que havia ganhando as quatro últimas eleições presidenciais e que governou o país por 14 anos. É fácil notar que a rejeição ao partido foi força propulsora para sua ascensão, e não, não foi por ódio aos pobres que o PT foi rejeitado. Os 57,7 milhões de votos que Bolsonaro recebeu, não são todos de pessoas que assinam embaixo de tudo o que venha do agora presidente, há entre esses, inclusive, aqueles que o rejeitam, total ou parcialmente, mas que têm uma rejeição relativa maior ao PT. Penso que se Bolsonaro tivesse enfrentado um candidato de outro partido no segundo turno, o resultado poderia ser diferente.

 

Mas não só a rejeição ao PT explica o sucesso de Bolsonaro, e sim uma rejeição a classe política como um todo. Vivemos um tempo em que o combate a corrupção política, cujas virtudes são incomensuráveis, criou um ódio pela política em si. Não é que a Operação Lava-Jato tenha feito isso pelo curso normal de suas operações, ou que devesse ter ignorado os malfeitos de políticos em nome da boa reputação da representatividade política, mas o fez pelos seus exageros. Episódios como a desnecessária condução coercitiva de Lula, a imagem de Sérgio Cabral com mãos e pés algemados, sem necessidade, o pitoresco episódio do “PowerPoint”, a tentativa de quebra de sigilo da fonte do blogueiro Eduardo Guimarães, a quebra de sigilo da fonte do jornalista Reinaldo Azevedo, são exemplos de marcos negativos relacionados a operação.

 

O combate a corrupção fez com que moralismos excessivos saíssem do armário, e moralismos excessivos cegam no tocante a abusos. Assistimos nesse intervalo de anos, desde as eleições passadas, procuradores gravando vídeos incitando o povo contra o congresso e políticos, exemplo do que aconteceu durante a votação das “10 medidas contra a corrupção”, de iniciativa do MP. O argumento era de que o Congresso havia “desfigurado” as medidas em sua votação. A coisa ganhou apoio popular. É como se aqueles eleitos pelo povo para fazer um trabalho, não pudessem fazer esse trabalho, devendo acatar integralmente qualquer documento vindo de órgãos formados por pessoas não-eleitas pelo povo, tudo em nome do combate a corrupção.

 

Vimos a mesma ladainha se repetir a respeito do – necessário – projeto de lei de abuso de autoridade. Sérgio Moro em pessoa criticou o projeto no Congresso. Falavam na época que esse “não era o momento” para aprovar aquele projeto, ou que “visava acabar com a lava-jato”, como se uma atualização da legislação e das punições para crimes de abuso de autoridade, pudessem castrar a operação, como se ela precisasse de poderes hipertróficos e acima da lei para existir. Aliás, nesse período qualquer coisa virou uma tentativa de acabar com a lava-jato, e a ameaça cabia em qualquer discurso. Sérgio Moro foi convertido em um herói da direita, mas a esquerda também se valeu do argumento ao se contrapor ao impeachment de Dilma. “Querem tirar a Dilma para acabar com a Lava-Jato”, diziam. Dilma caiu. A operação continua firme e forte. A propósito, seu personagem mais ilustre está confirmado no superministério da Justiça do presidente eleito.

 

O fato é que a exposição de intricados esquemas de corrupção motivou um sentimento de permissividade dos atores responsáveis por esta exposição, e aí os exageros ocorrem. Cria-se um clima moralismos exacerbados que contamina outros setores do Judiciário. Vimos recentemente, mais uma “treta” entre ministros do STF, no caso Luis Fux e Ricardo Lewandowski, um proibindo e outro permitindo que Lula concedesse uma entrevista a folha de São Paulo. A decisão de Fux, que atendeu pedido do partido Novo, suspendeu uma decisão liminar de Lewandowski que autorizava a entrevista, e determinou também, que caso a entrevista já tivesse sido realizada, não poderia ser divulgada. O nome disso é censura prévia, algo que, acredito, não víamos por aqui desde o Regime Militar. Foi uma coisa hedionda, mas permitida pelo clima que se instalou no país.

Com a classe política desacreditada, as pessoas buscaram alguém que representasse uma “renovação”. Sim, soa como um paradoxo que Jair Bolsonaro tenha passado quase 30 anos na Câmara e que tenha sido a aposta do novo, da renovação, do combate a velha política, mas fato é, que ele conseguiu se vender como um “outsider”.  Para isso contribuiu o fato de que ele não foi citado no amontoado de delações premiadas, o que em tempos de descrédito, fortificou a fé das pessoas no outrora candidato, ignorando coisas como a notória opção pelo carreirismo político, que estendeu para seus filhos, e a pouca boa vontade em abrir mão de seus privilégios de deputado.

 

Acredito, no entanto, que não foi apenas a não citação em delações que fizeram as pessoas ver Bolsonaro como um antídoto contra a corrupção, viram nele, com toda sua truculência, alguém que teria “colhões” para fazer as mudanças necessárias, não só aquelas referentes ao combate à corrupção, mas as relacionadas à segurança pública. Ser militar foi um fator fundamental para isso, pois além de passar uma imagem de “ordem”, conseguiu se vender como um especialista em segurança pública. Claro que ele patina na área, tanto quanto em outras.

 

Em um país cujos homicídios giram em torno de 60 mil ao ano, o discurso de que bandido bom é bandido morto e de que a polícia deve ter “carta branca para matar”, certamente seduz aqueles autointitulados “cidadãos de bem”, que certamente nunca darão motivos para serem mortos, nem nunca estarão no lugar errado, na hora errada. Mas não só estes se excitam com o discurso. O Brasil vive, em localidades mais violentas, praticamente um estado de guerra civil. O estado de medo se alimentou da truculência e a truculência se beneficiou do medo.

 

Com a caça às bruxas instalada e a forte rejeição ao partido que esteve em todos os segundos turnos, sempre que ocorreram, desde 1989, seria necessária uma terceira força, que naturalmente deveria vir do centro, para fazer frente ao radicalismo das duas outras opções. Ocorre que o centro se fragmentou na disputa presidencial. Houveram apelos em prol de uma união de último momento, mas em vão.

 

Bolsonaro também representa aspirações moralistas e religiosas, e a seu lado está o fundamentalismo religioso, mais notoriamente o evangélico. Do slogan escolhido para a campanha até a insistência em perpetuar mentiras sobre o “kit gay”, Bolsonaro foi a aposta perfeita dos defensores da “família tradicional brasileira”.

Mas a ascensão desse discurso é no mínimo irônica, já que também nesse período, vimos o recrudescimento do politicamente correto. Os ditos “progressistas”, com sua hipersensibilidade, tentaram e tentam criar um ambiente em que tudo deve passar pelo crivo do “não-ofensivo”, de peças teatrais a propagandas.

 

O politicamente correto é chato, e de certa forma autoritário em suas intenções, promove o que pode se chamar de censura cultural. Longe de encontrar aceitação popular, tem o efeito de gerar reações, que por vezes em exagero, carregam o mesmo defeito de censura cultural. É o caso daquilo que chamo de politicamente correto de direita, que vimos personificado nas ações de movimentos como o MBL contra exposições em museus, ou na validação moral dada às tentativas de censura da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”.

 

Aí entra Bolsonaro, e neste sentido, seu repertório de bobagens e preconceitos o ajudou. O politicamente correto é chato, e merece repúdio, mas isso não significa que qualquer reação a ele seja proporcional ou que não possa ser ainda pior. Bolsonaro junta duas coisas, é a encarnação do “politicamente incorreto”, algo parecido com Trump nos EUA, e também alguém que incorpora esse discurso pró família brasileira, representando um moralismo de outra ordem.

E as fake news? O WhatsApp e o uso das fake news, que seus apoiadores divulgaram fartamente, não foi a razão principal pela qual ele conseguiu vencer, mas sim uma ferramenta para traduzir as aspirações supracitadas. Se observássemos, uma grande parte dos conteúdos das fake news eram questões de ordem comportamental/costumes, e não de economia ou segurança pública. Isso certamente o ajudou. Quando pessoas passam a acreditar em coisas como as “mamadeiras de pinto”, ou que o opositor vai “legalizar a pedofilia”, ganha-se apoio pelo medo.

 

 Notem que pelo menos dois dos motivos que apresento, estão na conta da esquerda. Não foram o PT e a esquerda que criaram o movimento #bolsonaro2018, mas suas ações colaboraram para que ele atingisse viabilidade eleitoral, culminando com sua vitória. Culpar o voto dos “fascistas”, é uma explicação frágil. Não tenho dúvidas de que aqueles que são genuinamente preconceituosos, defensores da ditadura militar, da tortura, do extermínio policial, e por aí vai, certamente votaram no Bolsonaro, mas pensar que todo seu eleitorado é assim, é uma ingenuidade, e uma conveniência.  

 

A eleição de Bolsonaro é um produto do aniquilamento da confiança na classe política, alimentado por exageros e espetacularizações da Lava Jato, da reação aos 60 mil homicídios por ano, do politicamente correto em todas as suas formas, ocasionando a reação moralista e de terrorismo eleitoral por meio das fake news, da fragmentação do centro, que foi incapaz de oferecer um nome com força suficiente para dar um outro rumo à disputa, e sobretudo, uma reação ao PT e sua soberba.

 

 

Gabriel Wilhelms

 

 

 

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